ÍNDICE DE ARTIGOS

1. O Rio de Alvor e o Elo de Ligação a Lagos - 2003

2. A Grande Casa do Catalão - 2003

3. A Rua da Capelinha, vulgo Rua dos Burros - 1998

4. O Convento da Senhora da Glória - 1998

5. Os Paços do Concelho e os Passos que a Câmara Deu - 2000

6. Rua Porta de Portugal - Quatro Séculos de História - 1998

7. A Meia Praia e o seu Plano de Urbanização - 2004

8. A Ribeira e o Sino da Lota - 2000

9. Ó Praia do Porto de Mós, o que Foste e o que És - 2004

10. A Ermida de Nossa Senhora dos Aflitos - 2000

11. Lagos e a Instabilidade Sísmica - 2002 

12. A Barca das Armações - 1997

13. O Infante e as II Jornadas Henriquinas - 2004

 

por José Carlos Vasques


 

 

O Rio de Alvor e o Elo de Ligação a Lagos 

por José Carlos Vasques

 

O Rio Alvor nasce na Serra de Monchique no Monte da Fóia , tem um percurso de 18 quilómetros e é alimentado por várias ribeiras que lhe aumentam o caudal, dispersando-se por uma vasta zona húmida. A sua foz situa-se a meio da baía de Lagos dividindo-a em duas grandes praias: a Meia Praia e a Praia de Alvor. A zona lagunar é extensa e rica em sapais e marismas propiciando a existência de uma cadeia alimentar que pode, facilmente, entrar em decadência mercê de poderosas e inconscientes agressões humanas ao ambiente.

Este sistema biológico integra três importantes linhas de água: Ribeira de Bensafrim, Rio Alvor e Rio Arade, cujas fozes contribuíram durante séculos para a riqueza de diversas espécies piscícolas que povoaram a Baía de Lagos, situação, hoje, em ruína quer devido às agressões ambientais quer devido à intensa captura de espécies, resultante de actividades piscatórias descontroladas e ilegais.

A “ria de Alvor” foi um lugar privilegiado para criação de moluscos bivalves e, como todos os rios, um lugar de nidificação e protecção de juvenis de variadas espécies.

Diz-nos a História que todos os povos que por aqui passaram fizeram largo uso dos mariscos na sua alimentação. O Infante D. Henrique, dono e senhor das pescarias de Lagos, fez doação testamental ao seu sobrinho/neto, filho de D. Afonso V, do rendimento das pescarias das corvinas de Lagos e Alvor (in D. Henrique, de Carlos Selvagem).

A ligação entre Lagos e Alvor era feita por um caminho, fronteira frágil entre o campo e o areal, tal como é assinalado num mapa de 1791, embora se lhe encontre referência muito antes, pois em 1451 D. Afonso V fez doação a Álvaro de Athaíde, entre outras benesses, da barca da passagem. Doação repetida, em 1676 por uma princesa D. Mariana, ao Duque de Cadaval (in Monografia de Alvor). Assim, se dá nota da importância do tráfego de pessoas e mercadorias que atravessavam o rio. Porém, o lugar de destaque na vida deste rio sempre coube ao marisco: em 1868, para aperfeiçoamento da cultura das ostras curava-se de promover ostreiras artificiais em enseadas e rios, que eram propriedade do Estado. A apanha das ostras naturais decorria entre 1 de Abril e 31 de Agosto. O Marquês de Niza foi um dos vários interessados nesta exploração, tendo obtido concessão régia para a costa algarvia, de Lagos à foz do Guadiana –Portarias 10/10/1869; 26/1 e 21/3 de 1870. Em 1898 o Ministro Eduardo Vilaça providenciou a criação de ostras na costa do Algarve, autorizando Roberto Rubens Gabriel de Carvalho a montar estabelecimento ostreícola na ria de Alvor, para criação e engorda de ostras francesas. Os Diários do Governo de 29/07/1899 e de 02/01/1900 estabeleceram que a apanha das amêijoas fosse livre em todos os portos da costa, ressalvando o período de 1 de Maio a 31 de Agosto. (in História de Portugal – Ed. Verbo – Joaquim Veríssimo Serrão).

Esta medida de protecção governamental terá tido origem, segundo se diz, por o marisco estar no período da desova. Durante muitos anos esta decisão fixou na mente das pessoas que era nocivo comer marisco nos meses que não tivessem a letra “R”, por estar choco.

No ano de 1939, uma fábrica de conservas de peixe, de Lagos, a Sociedade de Conservas Aldite, fabricou e exportou apreciável quantidade de berbigão em conserva para países de origem hispânica, com respectivo rótulo em castelhano “berberechos”. Pensa-se que a qualidade tenha contribuído para o enorme sucesso, embora a mão-de-obra pesasse bastante no custo de produção.

Não há ainda muitos anos recebeu o Rio Alvor considerável quantidade de ostras de viveiros, vindas de outros pontos do país, para se proceder, por meios naturais à sua depuração.

Temos de evidenciar que o consumo de mariscos sempre foi um importante complemento na alimentação de ricos e pobres, entrando na confecção de variadas refeições, das mais modestas às mais requintadas da cozinha portuguesa. Tal facto está documentado em numerosos manuais de gastronomia.

É lamentável que esta riqueza seja posta em causa por actos de agressão ambiental que vão, insidiosamente, destruindo o ecossistema e estas actividades económicas que foram, outrora, grandes fontes de rendimento. Um olhar para o que se passa noutros países deveria servir-nos de exemplo e despertar-nos para a realidade.

Os importantes cursos de água que desaguam na nossa baía não têm escapado a esses atentados ambientais. No Rio Alvor foi a ocupação turística sem adequadas infra-estruturas de saneamento, a instalação de lavadorias com emissão de efluentes de elevado teor alcalino e outras fontes poluidoras que deram origem a grandes estragos nos viveiros de bivalves.

A protecção ambiental deve fundamentar-se em regras ecológicas que garantam o combate eficaz à contaminação da água por excesso de matérias orgânicas e/ou poluentes químicos. Lembramos uma lição elementar de Ecologia: o fornecimento de oxigénio aos mares é feito numa acção conjunta entre a pressão atmosférica, a ondulação provocada pelos ventos e as correntes oceânicas e pelo ciclo de vida das plantas aquáticas e subaquáticas. Assim, é vulgar verificar-se em águas paradas, com leitos saturados de matéria orgânica, a libertação de bolhas de gases (metano), tal é observável em pântanos e marinas de águas paradas ou em que quase não existem correntes. Também os materiais oleosos impedem o contacto e a interacção entre a superfície aquática e o meio aéreo, impossibilitando a vital oxigenação. Algumas espécies piscícolas especializaram-se na limpeza da superfície mas, nem as eficientes tainhas conseguem dar conta do recado pois a sua acção centra-se apenas sobre as matérias naturais e não as de origem mineral. Sabores estranhos, denunciam a extensão do ciclo poluidor, retirando algumas espécies da ementa tradicional e lançando a suspeição sobre outras.

Nas margens do Rio Alvor existiram muitas marinhas de sal, em tempo em que as águas límpidas o permitiram. Também as houve em Lagos mas a sua produção nunca foi suficiente para as necessidades da salga de peixe, pelo que se recorria a Alvor.

A importância do sal, como grande conservante de alimentos, levou à criação régia das Casas do Sal, privilégio do foro estatal.

Ainda acerca do Rio Alvor, podemos observar que a água do mar -depurada pelos meios naturais- ao subir rio acima (acção da maré), vai regenerar toda a cadeia alimentar numa verdadeira renovação da vida.

Antes das construções dos actuais molhes do Rio de Alvor -cuja orientação tem sido contestada- a entrada estava na contingência de fechar pois na maré baixa a travessia já quase se fazia a pé. Assim, duma laguna passaria a lagoa com todos os inconvenientes. Era, pois, uma obra premente.

Recentemente, os municípios de Lagos e Portimão celebraram um protocolo para a preservação do sistema do Rio Alvor, essa mais valia ambiental que se deseja constitua um pólo de ligação ao invés de uma fronteira natural. Estão de parabéns mas, temos que ir mais longe. É um desperdício, não aproveitar de forma racional os terrenos marginais do rio e, se possível, restituir-lhe aqueles que lhe pertencem bem como incrementar e promover a cultura dos bivalves: berbigões, amêijoas, lingueirões, ostras e outros que foram desde tempos imemoriais uma grande fonte de riqueza para a região. Estas culturas não comprometem o ecossistema e constituem um contributo efectivo para o, tão apregoado, desenvolvimento sustentado. Estes sistemas lagunares deviam ser directamente explorados por quem neles trabalha o que constituiria um factor de fixação das comunidades vizinhas e que deviam contar com o apoio técnico e científico da valência de Biologia Marinha da Universidade do Algarve. Assim se promovia um diálogo entre actividades económicas locais e os seus profissionais por um lado (o mundo real), e a instituição académica numa relação de onde sairiam mais enriquecidos todos os intervenientes.

Afinal, só faz falta usar o Bom Senso. O resto, já cá temos... naturalmente.

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A Grande Casa do Catalão

por José Carlos Vasques

 

Não tendo sido possível indagar quem mandou construir essa casa agrícola que dista da cidade de Lagos em cerca de cinco quilómetros, outros dados e factos se podem, porém, reunir. Numa pedra lá existente grava-se a data de 1875, o que dá a perceber ter havido grandes obras, pois o que foi feito na data referida superioriza outras construções do conjunto.

 

O que se sabe é que os proprietários que lhe deram vida e benfeitorias eram da família Júdice, originária da Córsega italiana, terra de Napoleão Bonaparte.

 

Família abastada, proprietários, industriais, negociantes e exportadores com actividades em Estombar, Mexilhoeira da Carregação, Lagoa, enfim, por todo o Algarve (v. Monografia de Estombar de Athayde de Oliveira).

 

O último proprietário, conhecido das gerações actuais, foi o major David Rodrigues Neto e, hoje, são os seus descendentes.

 

 

Falar desta propriedade agrícola é também fazer um pouco a história da agricultura da nossa região. As instalações tinham que servir uma actividade rural diversificada e uma agricultura polivalente que exigiam armazéns para os cereais (celeiros), ramadas para os gados, tulhas para os figos e amêndoas, adegas e obviamente as residências do proprietário e do caseiro. A zona envolvente, formada por terrenos secos obrigou à construção de uma enorme cisterna para aproveitamento das águas pluviais, que uma rede de algerozes recuperam e encaminham a partir dos telhados. No celeiro principal ainda se pode observar o sino que badalava as ordens laborais, ecoando pela vasta propriedade.

 

O maior rendimento desta exploração adveio da cultura da figueira, da amendoeira e da vinha, sem contudo deixar de parte os cereais que sempre tiveram papel importante na economia do agregado rural. Grande, foi a quantidade de terreno desbravado nesta propriedade, tal como em vastas áreas das freguesias de Barão de S. João e Bensafrim. A pedra recolhida, calcária, foi aproveitada para o fabrico de cal, matéria de larga aplicação na construção civil – tal como nas fortificações, em tempos mais remotos da nossa história. Hoje, não resta um único forno de cal em actividade no concelho de Lagos, nem conheço nenhum em toda a zona do barrocal (do barro e da cal) algarvio.

 

Celeiro

 

O figo produzido nesta propriedade foi, em tempos, uma grande fonte de rendimento, sendo exportado para toda a parte. Hoje, é difícil encontrá-lo nos supermercados.

 

Os fumeiros para a preparação deste fruto seco são referenciados desde a época em que o Infante D. Henrique por cá andou.

 

Breve consulta à história do Algarve revela que esta província era um potentado na produção de passas, devido ao clima generoso - longos dias de sol e reduzido período de chuva.

 

A preparação dos frutos secos requeria uma atenção especial e mobilizava, nessa época, muita mão de obra. Até à sua expedição, em embalagens manufacturadas com folhas de palma (planta expontânea e abundante na região), o fruto percorria um circuito tão intrincado que deu azo ao dito "passar as passas do Algarve" referente a quem atravessa uma fase atribulada na vida.

 

Mas foi o vinho que deu fama à Casa Agrícola do Catalão e à sua história que caída no esquecimento merece, muito justamente, ser recordada.

Adega

 

Quando se afirma que o Algarve nunca foi uma região de grande produção vinícola, incorre-se num erro crasso que atesta total desconhecimento da nossa história, desde o período dos Descobrimentos. Que o Infante fosse abstémio é uma coisa, agora que as caravelas não levassem o seu aprovisionamento de vinho, é uma falácia. Aliás, esta cultura ocorreu ao longo da história em toda a orla mediterrânea europeia, mercê da doçura, e grau alcoólico, das uvas criadas neste clima soalheiro. Os vinhos da nossa região possuem essa preciosa propriedade que é o facto de ganharem qualidades com o seu envelhecimento. As uvas têm nomes portugueses mas a sua origem perde-se no tempo. Certo, é que as castas foram-se adaptando às condições geográficas e climatéricas, aperfeiçoando e ganhando resistência para a sua sobrevivência e continuidade.

 

Segundo a Enciclopédia de Aplicações Usuais ( João Bonança – 1903), as castas são as seguintes: para o vinho branco: manteúdo, boal, perrum, crato ou tamarez e moscatel; para o vinho tinto: pau-ferro, crato preto, bastardinho e trincadeira; para os rosados: negra mole. Estas castas ainda existem nas vinhas, conferindo alguma qualidade aos vinhos actuais não obstante a sua "adulteração regional" devido à introdução de castas exógenas. Uvas que acusam uma graduação alcoólica entre 15,5º e 21,4º certamente têm que sofrer uma redução de grau para poderem ser consumidos como vinhos de mesa. Das castas referidas destaca-se a tamarez de que a sabedoria popular referenciou a qualidade, através da seguinte quadra: Tamarez, não o vendas/ Não o dês/ Que para vinho/ Deus o fez. Há a distinguir ainda uma casta que não sendo filha de algo (fidalga), é verdadeiramente nobre pela excelente qualidade do vinho que produz, trata-se do bastardinho.

 

A Casa do Catalão produzia muita uva bastardinho e isso valeu-lhe notoriedade junto dos produtores nortenhos que aqui vinham comprar os vinhos desta e de outras castas mais ricas para depois lotearem com os seus de baixo teor alcoólico.

 

Após os grandes surtos da filoxera - insecto voraz que destruiu grande parte dos vinhedos do Alto Douro entre 1858 e 1863 - nas vinhas do Catalão (poupadas ao desastre) as reposições foram feitas com bacelos resistentes à praga, por precaução.

 

O bastardinho foi sempre preferido para vinhos abafados, ditos licorosos. Os proprietários do Catalão estabeleceram um contrato com um vinicultor do Norte para aqui vir preparar os vinhos segundo a metodologia da sua região, o acordo funcionava em regime de maquia. O êxito foi tal que o contrato manteve-se durante muito tempo.

 

 

Há anos atrás, o proprietário do Hotel Bela Vista, da Praia da Rocha, confidenciou a um seu empregado que possuía um lote de garrafas de vinho licoroso bastardinho que, quando participava em provas de qualidade ao lado de outros especiais, ficava sempre em lugar cimeiro (segundo cita o senhor António Júdice de Magalhães Barros).

 

A Casa do Catalão possuía vasilhame de madeira de grande capacidade que foi entregue à, então, recém criada Adega Cooperativa de Lagos. Porém, para retirar do local os imensos tonéis foi necessário alargar as portas da adega que os albergava. Posteriormente a Cooperativa mandou proceder às necessárias reparações (por tanoeiros nortenhos) e eis que, para surpresa do mestre tanoeiro este descobriu que alguns dos tonéis tinham os tampos em mogno de Cuba, madeira muito antiga pois que o arvoredo dessa ilha foi devastado, há muito, para dar lugar às extensas plantações de cana do açúcar e de tabaco.

O vinho bastardinho ganhou tal fama que quando uma pessoa se encontrava enfraquecida, dava-se-lhe a tomar uma mezinha ou uma espécie peitoral, preparadas a partir do dito néctar.

 

A adega do ilustre médico lacobrigense Dr. António Júdice Cabral também fabricou excelente vinho bastardinho, indo muita gente à Rua da Barroca comprá-lo para fazer as tais mezinhas.

 

Lagos é uma terra de grandes tradições, hoje bastante minguadas em favor das modernices das vagas de turismo que a assolam. Até a Rua da Barroca, ex-libris da cidade, já ostenta decoração original que identifica uma entrada – ou saída – de restaurante oriental.

Chinesices.

©JoséCarlosVasques/CEMAL

 

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Rua da Capelinha - Vulgo Rua dos Burros

"Apologia dos Burros"

por José Carlos Vasques

 

Os nomes das ruas tiveram origem em acontecimentos ou em edifícios de especial importância, nomeadamente os destinados ao culto religioso, ou a outros factores determinantes para essas atribuições, muitos deles de cunho popular.

Procurar a razão para o nome da Rua da Capelinha parece, à primeira vista, tratar-se de uma tarefa inglória mas há um ditado que diz: - "procura e acharás".

A Capelinha existiu e ainda existe na dita rua, entaipada por uma parede de tijolos e, segundo testemunha ocular de obras efectuadas numa habitação, a imagem da que concebeu virgem lá está, sem ser adorada. A Virgem Maria teve tantos nomes que é difícil a qualquer um nomeá-los todos. Esta é a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Quantos templos existiram em Lagos dedicados à padroeira de Portugal? Penso que terão sido três. Em primeiro lugar o da actual Igreja de S. Sebastião, depois, o Convento das Carmelitas, e finalmente este pequeno orago, situado na Rua da Capelinha.

A pista principal foi-nos apresentada por Paulo Rocha na sua Monografia de Lagos, obra sem a qual muito pouco, hoje, se saberia acerca da história da nossa cidade. A este respeito diz-nos: " O Bispo D. Francisco Gomes visitou por diversas vezes a Capela de Lázaro Moreira, a qual tinha por orago N. S. da Conceição e ficava na primeira casa situada fora da Porta de Portugal. Esta Capela pertencia ao morgado instituído pelo padre Afonso d’Almeida Corte Real. Lázaro Moreira, ainda em 1833 estava de posse desse morgado e capela, mas a 25 de Fevereiro do dito ano terminou uma questão judicial que ele tinha com D. Bárbara Bento Bulhões Naves Leotte, ficando esta senhora de posse do referido morgado e capela."

Esclarecido que parece estar o topónimo oficial da rua, não pode, porém, ficar no esquecimento aquele que é o nome mais conhecido pelo vulgar cidadão, a Rua dos Burros. Para isso teremos que retroceder no tempo, "visitando" outras gentes mais remotas que ocuparam este mesmo espaço geográfico.

As muralhas de Lagos assentam sobre afloramentos rochosos e um exemplo disso é a própria muralha que separa esta rua do resto da cidade, no sentido Norte/Sul. A abertura desta rua foi, certamente, um trabalho gigantesco. Foi necessário efectuar o corte de um rochedo que, em muitos lugares, atingiu os dez metros de altura. No cimo foi edificado o baluarte da Porta do Postigo. Demolido este baluarte, hoje é o Largo da Torrinha que domina toda a panorâmica Norte da cidade.

A rua foi construída desde o alto da Rua da Aldeia (ou António Crisógono dos Santos), até ao baluarte da Porta de Portugal, sendo uma via de acesso à beira rio e aos estaleiros.

É muito difícil descrever com exactidão e pormenor aquilo que os nossos olhos vêm e aquilo que nos salta ao pensamento.

Na mesma rua existia a Porta do Postigo, destruída num ataque das tropas miguelistas. Pensamos que a Porta do Postigo teve, em tempos, o nome de Porta de Luís Pereira a que se refere o Dr. Alberto Iria em "O Algarve e os Descobrimentos".

A Porta do Postigo e o baluarte do mesmo nome foram demolidos, mais tarde, perdendo-se assim um importante testemunho do que fora o admirável reduto defensivo de Lagos.

Na rocha cortada a pique, na dita rua, existia uma gruta que servia de abrigo da chuva e da qual se retirava barro para polir utensílios de cozinha. A Câmara mandou tapar a gruta devido à imundície que aí se fazia e ao mau cheiro resultante que empestava o local.

Tradicionalmente, possuiu esta rua um ferrador de gado muar, azenino e cavalar, mas também de bovino de tracção.

Um estaleiro naval esteve longos anos instalado nesse local, à beira rio, com oficina na rua. Na altura da construção da avenida marginal foram encontrados restos de embarcações antigas, próximo de um cais, em parte, submerso. O achado parece indicar que já aí funcionaria um estaleiro no período dos descobrimentos.

Próximo do baluarte da Porta de Portugal transvazava o cano que abastecia a cidade

de água e que, na maré baixa, era aproveitado pela gente mais pobre para lavagem da roupa. Essa água corria dentro de um cano, em parte descoberto, encostado ao antigo Jardim dos Amuados, local onde existiu o baluarte da Porta de Portugal.

Hoje, nada disso existe, restam apenas as recordações.

Nessa rua existiu uma casa de prostitutas conhecida por Três Dedos mas...voltemos aos burros, que são animais pacíficos. O nome mais divulgado e conhecido desta artéria da cidade foi, e é, Rua dos Burros. Nome ligado aos costumes de uma determinada época e a profissões que o progresso foi eliminando.

Durante o vasto período em que o mar e os campos alimentavam directamente as cidades com quase todos os produtos que estas necessitavam os meios de transporte terrestres tinham no animal o seu motor exclusivo. O rico tinha o cavalo, o menos rico a mula, e o pobre o burro. A aritmética simples do dia a dia garante um maior número de pobres do que de ricos e, assim, os burros seriam também em maior quantidade do que os cavalos ou as mulas. Carvoeiros e lavadeiras, entre outros, utilizavam diariamente os jumentos na sua actividade.

O carvão de origem vegetal teve a sua época, especialmente em tempos de crise, foi o combustível de uso corrente tanto para a cozinha como para outros fins. A profissão de carvoeiro era muito concorrida, atendendo à enorme procura e consumo deste produto. Na serra abundava a lenha mas, no nossa zona, a preferência sempre foi para o carvão. Carvão da cepa da urze, de que se utilizava ainda a rama para incendiar o carvão, atiçando-o, daí derivando o termo "atiças".

Muitos terrenos foram desbravados e preparados para outras culturas após a extracção da urze. Este produto, por ser leve, chegava à cidade em pequenos sacos, no dorso dos burros que percorriam caminhos serranos não acessíveis a outros transportes. Como combustível, o carvão vegetal tinha muitas aplicações: uso doméstico; oficinas e fábricas; e durante a II Grande Guerra, em motores de explosão em que a gasolina era substituída pelo gás de carvão, o gasogénio. Até se usava uma brasa de carvão que, introduzida na cafeteira, fazia precipitar mais rapidamente as borras do café.

Uma outra profissão, hoje praticamente extinta, utilizava frequentemente o burro, a das Lavadeiras, que em dias certos da semana vinham à cidade receber das suas clientes a roupa para lavar nos tanques das hortas ou nas ribeiras. O trabalho era pago à peça, e para controle era feito o rol da roupa suja. As roupas eram acondicionadas em sacos de linhagem ou linho e transportadas no dorso dos burros.

A rua da Capelinha assistia, amiúde, a enorme concentração destes animais pois situava-se na saída da cidade e no início do percurso destes profissionais. Aí, os animais ficavam atados por cordas a ferros ou argolas metidas na parede, por esta razão a rua foi sendo denominada por Rua dos Burros em detrimento do verdadeiro topónimo, que praticamente ficou no conhecimento exclusivo de carteiros e entidades oficiais.

Era indescritível o que estes animais tão pacíficos sofriam por vezes: - tropelias de toda a ordem, para divertimento de gente pouco respeitadora dos direitos dos animais.

O burro é um animal dócil, sóbrio na alimentação, resistente às variações do clima, de boa memória, sensível à aproximação dos tremores de terra, acusa a presença do seu tratador ainda que a uma distância considerável. De orelhas grandes, móveis em várias direcções, capta e traduz os sons, respondendo com um zurrar, de acordo com aquilo que o sensibiliza. Além de uma visão acuradíssima reconhece-se-lhe grande impetuosidade na reprodução da espécie. Mal apreciado por muitos, cujo nome têm por conceito depreciativo é, até, vilipendiado pelos poetas, gente supostamente sensível.

Cruzado com o seu parente cavalar dá origem a um híbrido que não se reproduz mas que alia as boas características das duas raças. O leite da burra supria o da mulher na alimentação das crianças, pratica corrente das gentes do campo, quando às mães faltava o leite para amamentar os seus filhos. São conhecidos os seguintes ditados que o referem:

- Mais vale burro que me leve, que cavalo que me desmonte! (antigo)

- O asno (burro) para o pó, rocim para o lodo, o macho para todo. (antigo)

- É melhor ser burro de um carvoeiro do que servente dum pedreiro.

Hoje, quem tem burro recebe subsídio, por ser animal em vias de extinção.

Por tudo isto, e por muito mais que poderíamos dizer desse nobre animal e do seu lugar na História, nomeadamente na história de Lagos, acho o nome Rua dos Burros muito bonito e, sem dúvida, merecido e apropriado a esta artéria da nossa cidade.

©JoséCarlosVasques/CEMAL

 

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Lagos e o Convento da Sra. da Glória

por José Carlos Vasques

 

Ficamos muitas vezes surpreendidos por artigos publicados sobre a história do Convento de Nossa Senhora da Glória que foi, também, da Nossa Senhora do Loreto, Mosteiro da Província da Piedade e Convento dos Frades Capuchos ou Franciscanos.

Naquilo que se publica, faz-se a afirmação de que a construção do Convento foi obra do Bispo D. Fernando Coutinho, o que não parece enquadrar-se na verdade histórica.

O Bispo citado ofereceu, aos frades Franciscanos da Província da Piedade, um terreno para horta do dito Mosteiro, terra que estava conjunta ao mesmo, "e porque os ditos religiosos não podiam ter bens próprios, o referido Bispo fizera doação a El-rei D. Manuel que por sua vez a doara ao aludido Convento". (1)

Em várias doações de 1520 se menciona Santa Maria do Loreto de Lagos. O antigo Convento de Nossa Senhora do Loreto é tido como fundado por D. Joana de Sousa que devia ser proprietária de terrenos situados na área do Convento.

Num pequeno livrinho da história do Convento de Nossa Senhora da Glória - e o Asilo dos Velhinhos - diz o mesmo, que o antigo Convento foi obra do Bispo D. Fernando Coutinho. A partir daí não é de admirar que tal acepção seja aceite como verdadeira e abundantemente reproduzida até porque a afirmação parte de um eclesiástico, cujas palavras são escutadas como verdades dogmáticas e indiscutíveis.

É imperioso colocar as coisas no seu devido lugar. O Convento já existia em 1503, e no local onde hoje se encontra, conforme se depreende do seguinte documento: - "Senhor - Dizem os officiais da Camara desta cidade de Lagos que na serca dos muros novos desta cidade estaa hua porta chamada a de luis pereira que foi sempre serventia da major parte dos moradores e depois se tapou em tempos que se temia aver Imigos o que ora não ha e he muito necessario aver serventia pela dita porta porque por ela se servem os padres do mosteiro da piedade e as mais serventias pera elles são de muito rodeo, e trabalhosas, e pela dita serventia vão todos homens nobres e honrados e molheres honestas e vergonhosas e honradas a ver as suas fazendas por ser por parte escusa e faz muita falta a dita serventia e da muita opresão e trabalho aos mais dos moradores estar tapada não importando cousa algua estando tapada pedem a Vossa Senhoria avendo todo o respeito aja por bem que a dita porta se abra e aja serventia pela dita parte e mão de que se abra esperam Receber Merce.".

No verso deste documento, referente ao portal do muro, está exarado o despacho que autorizou a sua abertura, em 1503 Novembro 4.

Existiu um convento, este mais pequeno, junto ao sapal de S. João mas, devido à insalubridade do sítio, os frades tiveram de o abandonar, construindo um outro convento a poente, num ponto mais alto. Contudo fizeram um passeio do convento velho para o novo vinculando assim a ligação dum ao outro. Da igreja do antigo convento encontram-se ainda vestígios na cozinha duma habitação que pertenceu a Giorge Novak.

Causa admiração que em 1503 Lagos seja citada como cidade quando só o foi em 1573 no reinado de D. Sebastião. O "bairrismo" existiu sempre como valor arreigado em todas as povoações e é portanto devido ao intenso desejo de Lagos vir a ser cidade - desejo acalentado pela população desde a promessa de D. João II - "D. João o 2º prometeu de a fazer cidade". (2)

Para aquele tempo, um amuralhado com 2.450 metros de extensão, talvez o maior em todo o País, dava um aspecto de grandeza, e mesmo vaidade, a qualquer terra, fosse ela povoado, aldeia ou vila.

Não se sabe, com exactidão, a data do início da construção da cerca da vila mas não há dúvida que estava totalmente acabada antes de 1503, assim o indica o documento atrás transcrito.

Quanto ao Bispo D. Fernando Coutinho seria, nessa época, um personagem muito rico e, também, muito dado a amores. Tomou o bispado do Algarve em 1502, por troca com o de Lamego com o Bispo D. João Camelo, conforme carta de quitação de 19 de Abril desse ano.

Analisando os factos, seria pois impossível que as muralhas e baluartes, e mesmo o Convento dos Franciscanos tivessem sido, de uma penada, construídos num só ano.

Os baluartes foram "baptizados" com os nomes dos oragos da maior parte dos templos existentes na vila, e que lhes ficavam mais próximos, tal, é um facto incontestável: O de Santa Maria da Graça ou Porta da Vila, refere-se à Igreja da Santa Maria da Graça que já existia em 1415; o de Santo António (hoje, do Coronheiro), refere-se ao Convento de Santo António (um dos mais antigos de Lagos e de que se desconhece a data de construção); o de Nossa Senhora da Conceição ou da Gafaria refere-se à Ermida de Nossa Senhora da Conceição (1325, hoje Igreja de S. Sebastião); o de Santo Amaro, hoje chamado, do Paiol, refere-se à Ermida de Santo Amaro (de data desconhecida); o de São Francisco, hoje do Jogo da Bola, referente ao Convento de São Francisco ou de Nossa Senhora da Glória já existente em 1502 ou mesmo muito antes dessa data.

Os baluartes tiveram nomes de santos, atitude comum nessa época: o de São Nicolau e depois da Alcaria das Freiras (Carmelitas); e o de São Manuel, que passou a ser mencionado da Porta Nova - depois de aberta uma nova porta em substituição da Porta de São Roque, derrubada para ser construído o actual edifício dos Paços do Concelho.

Também as Fortalezas tiveram nomes de santos ou santas: a do Pau da Bandeira ou da Senhora da Penha de França, e a da Meia Praia ou de São José.

Voltando aos baluartes convém referir que alguns ficaram conhecidos pelo nome das portas que lhes ficavam adjacentes: o da Porta do Postigo, a porta que se abria aos retardatários; o da Porta de Portugal, situada a Norte, voltada para o interior do reino; e o da Porta dos Quartos, depois da construção em 1695 dos quartos para alojamento de militares dos quartéis aí sediados. Estes baluartes, se tiveram nome de santos, e tudo leva a crer que sim, esses nomes estão agora esquecidos. Dão-se alvíssaras a quem os encontrar.

©JoséCarlosVasques/CEMAL

 

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Os Paços do Concelho e os Passos que a Câmara deu

por José Carlos Vasques

 

Dos antigos edifícios dos Paços do Concelho pouco ou nada se sabe acerca da sua localização, encontra-se somente uma referência na Monografia de Lagos "Em 1490 Soeiro da Costa procurador às Cortes de Évora requereu, em nome do povo, diversas providências a respeito da finta que este pagava para a conclusão dos Paços do Concelho."

Antes de ocupar o edifício actual, os Paços do concelho situavam-se na, hoje, Praça do Infante, em frente à igreja de Santa Maria da Misericórdia, e do Pelourinho.

Segundo a obra "A Cidade e o Termo de Lagos no Tempo dos Filipes", de Fernando Cecílio Calapez Corrêa: "O pelourinho elevava-se no meio do cais. Desse local foi mudado para a Praça ou Ribeira dos Touros, em 18 de Março de 1752 por ordem do então Governador Capitão-General D. Afonso de Noronha". Parece que derruiu em 1755 devido ao terrível terramoto de 1 de Novembro.

Esse edifício onde funcionavam os Paços do Concelho possuía a torre do relógio e um subterrâneo que servia de masmorras. A construção deste edifício é atribuída a D. Nuno da Cunha Athaíde que, como Governador do Algarve, mandou erigir em Lagos as casas da Câmara. Presume-se ter sido entre 1653 e 1655 quando este Conde de Pontevel foi provedor da Misericórdia de Lagos.

Com o terramoto de 1755 uma parte de Lagos transformou-se num amontoado de ruínas que incluiu o edifício dos Paços do Concelho e o núcleo religioso contíguo.

A Praça do Município foi aterrada com os escombros das casas derrubadas, atingindo o aterro cerca de meio metro de altura. Aterrado foi também o poço que aí existia para abastecimento do povo e para serviço do pessoal do Armazém da Praça. Esse poço que estava situado metade para o exterior e metade para o interior do dito armazém tinha, por cima, na parede, a assinatura do Conde de Avintes, esculpida em pedra.

Após o cataclismo a Câmara passou a reunir-se em casas alugadas e terá ocupado, segundo a tradição oral, uma casa no cimo da Rua Augusta (actual Rua Cândido dos Reis).

Muitos anos após o terramoto a autarquia deu início à construção de um novo edifício no anterior local que ocupara, em terreno que lhe pertencia. Porém, até à construção do actual edifício, que ocupa, a Câmara passou por muitas vicissitudes com várias promessas não cumpridas de permeio, conforme refere a "Monografia de Lagos" de Manuel João Paulo Rocha:

- "Em sessão Municipal de 1 de Julho de 1796 foi presente um ofício do Conde de Vale de Rei no qual em nome de Sua Magestade oferecia um relógio para a cidade de Lagos com obrigação da Câmara desistir dos direitos que tinha sobre o terreno onde estavam edificando o hospital militar. A oferta foi aceite, mas vê-se da escrituração da Câmara que não foi enviado o relógio prometido"

- "Não foi enviado o relógio mas ainda D. Maria chegou a enviar o sino para ele, o qual, está na actual torre do relógio de Santa Maria".

- "D. João por graça de Deus e da constituição da Monarquia, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, d’aquém e d’além mar em África, etc, faço saber a vós vereadores da Câmara da cidade de Lagos, que, em consulta do Conselho da Fazenda de 17 de Janeiro do corrente ano se lhe fez presente a vossa representação em que expunheis que pelo terramoto de 1755 foram destruídas as casas próprias da Câmara em cujo terreno se achava hoje edificado o hospital militar por se haver cedido à fazenda pública nacional o mesmo terreno; que em 1798 se tinha principiado umas casas para a Câmara, as quais se achavam somente em meias paredes por falta de rendimento para as concluir em 1820, e que estando sempre em casa de aluguer, o presidente, que era conjuntamente juiz d’alfandega, destinara para as sessões da Câmara a casa da alfandega . (.....) que os vereadores, na próxima passada Câmara tinham um oficio do superintendente das alfandegas em data de 25 de Setembro de 1822 para deixarem livre e desembaraçada a sala em que faziam as suas sessões."

- " Em 8 de Janeiro de 1836 pediu a Câmara Municipal de Lagos ao administrador do Hospital Militar que cedesse duas salas do mesmo hospital para as audiências gerais; o administrador recusou-as com o fundamento de pertencerem à intendência das obras militares."

- " A Porta de São Roque que ficava onde hoje se situa os Paços do Concelho e foi tapada no dia 24 de Abril de 1832."

Por tudo quanto está escrito se deduz que a data gravada na verga de pedra da porta principal do actual edifício dos Paços do Concelho - 1798 – não corresponde à data da construção desse edifício. Presume-se que as cantarias da porta principal tenham sido inicialmente destinadas ao edifício localizado na Praça do Pelourinho, hoje Praça do Infante, visto que em 1836, conforme está esclarecido, o edifício da Câmara não estava ainda construído e, portanto, a data esculpida na porta não pode corresponder à idade deste imóvel.

Até ao ano de 1931 o edifício da Câmara conservou a sua traça primitiva, com o fosso onde estavam situadas as oito bicas que forneciam os aguadeiros que vendiam água pela cidade, em cântaros.

O acesso era feito por dois lanços de escadas, um de cada lado, e toda a fachada estava protegida por gradeamento de ferro.

No mesmo ano de 1931 a Câmara procedeu ao aterro do fosso das bicas, retirou o gradeamento e elevou o nível do pavimento da Praça Gil Eanes criando o inconveniente das soleiras das portas ficarem vulneráveis às cheias dessa linha de água que foi a Ribeira das Naus, hoje Rua Garrett. Actualmente continua a verificar-se fenómeno idêntico quando ocorrem chuvadas mais intensas.

As alterações introduzidas coincidiram com o fornecimento, ao domicílio, de água canalizada, e com a construção de várias casinhas semelhantes à que ainda hoje existe na Praça d’Armas.

Na madrugada de 28 de fevereiro de 1969 um tremor de terra abalou toda a cidade fazendo-se sentir muitos quilómetros em redor. Uma vez mais o edifício da Câmara sofreu avultados prejuízos, e de tal monta que o juiz da comarca mandou transferir o tribunal, que aí funcionava, para a Casa da Justiça embora esta ainda não estivesse concluída, receando danos para os funcionários e evidenciando a falta de condições resultante da avaria provocada pelo sismo.

Face aos prejuízos, quer os sofridos por particulares, quer no edifício da Câmara, o estado oficiou a autarquia inquirindo acerca da avaliação dos prejuízos municipais. Em resposta a Câmara respondeu que perante os prejuízos sofridos já estavam perspectivando a construção dum novo edifício. E tudo ficou por aqui. Perdeu-se, assim, uma boa oportunidade de proceder à reparação condigna do edifício, uma vez que o Governo estava disposto a suportar os custos da obra, tal como fez com muitos particulares.

Muitos anos depois do sismo de 1969, por volta de 1982, foi iniciada a reparação do edifício dos Paços do concelho que, fatalmente, tinha que se verificar. Os serviços foram transferidos para o Quartel de Santa Bárbara, que estava desactivado, por deferência muito digna do Ministério do Exército.

No retorno ao edifício dos Paços do Concelho, já reparado, verificou-se um caso singular que constituiu um verdadeiro atentado contra o património histórico-cultural da cidade de Lagos. Um Vereador, segundo se pensa de moto próprio e à revelia da Câmara, ordenou que fosse carregada, em viaturas da autarquia, toda a documentação do arquivo municipal e, despejada no local onde se situa hoje a praça de toiros, totalmente queimada. O fogo, pavoroso, foi tão intenso que derreteu uns vidros de umas iluminárias que em dias de festa se colocavam nas janelas do edifício da Câmara.

Lagos perdeu, desta forma ignóbil, todo o seu património documental municipal constituído, em parte, pelo que se conseguira salvar do terramoto de 1775, os registos referentes à ocupação das tropas de Napoleão e à guerra entre liberais e miguelistas e os mais recentes, até 1960. Uns pouquíssimos documentos recuperados por testemunhas deste acto tresloucado, e que tinham caído das viaturas durante o transporte, atestam o elevado valor da documentação perdida. Hoje encontram-se à guarda do Museu Regional de Lagos.

O património documental de Lagos foi vítima de várias desgraças, umas por causas naturais, outras pela prepotência ou torpe ignorância de (ir)responsáveis. Em 1808 um incêndio destruiu grande parte da documentação, quando a Câmara estava instalada em casa de aluguer, embora não saibamos o local exacto. Outro incêndio teve lugar já no actual edifício dos Paços, em 1884, tendo o fogo consumido muitos papéis antigos.

O edifício da Câmara, depois de reparado, foi destinado para funções de apoio cultural, turístico, reuniões da Câmara e de cerimónias solenes e outras funções representativas.

Conforme já foi dito o edifício da Câmara foi implantado em 1832, em parte sobre o que tinha sido a Porta de S. Roque e, ainda, sobre uma parcela da muralha, ficando com as traseiras voltadas para o mar, que vinha bater nas suas paredes. E assim se manteve até 1960, até à construção da Avenida dos Descobrimentos. Das suas janelas dominava-se uma belíssima panorâmica que incluía o estuário da ribeira de Bensafrim, a Praia de S. Roque, a Meia Praia, a Estação da C.P., a baía, etc. Hoje, com grandes construções no seu horizonte a panorâmica vai ficando comprometida.

A sua fachada principal, voltada para a Praça Gil Eanes - que foi um centro histórico mas hoje já não é devido à edificação dos prédios em seu redor que, assim, lhe negam esse direito -, segundo se afirma, manteve as linhas primitivas identificadoras de um período ou estilo de transição do séc. XVIII para o séc. XIX.

O edifício, que hoje ostenta uma tabuleta "PAÇOS DO CONCELHO – CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOS", foi outrora um pólo (como agora se diz) de organismos oficiais. Aí funcionaram a Repartição e Tesouraria de Finanças, o Tribunal, a Administração do Concelho, uma Esquadra de Polícia, e até um laboratório de análises ao leite. Desta forma se simplificava a vida a quem necessitasse de tratar vários assuntos nas diversas repartições, com o Registo Civil e Predial bem perto. O Cartório Notarial é que esteve sempre noutro local.

Mais não é possível dizer sem recurso ao acesso a elementos que dependem de autorização da Câmara, privilégio de outros.

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Rua da Porta de Portugal

 - Quatro Séculos de História -

por José Carlos Vasques

 

 

Antes de D. Sebastião ter visitado Lagos já existia esta rua com o nome de Rua Nova. Se era nova certamente teria sido aberta na altura da construção do baluarte da Porta de Portugal, baluarte que terá tido, também, outro nome. A porta, por ficar voltada a Norte, para o interior do Reino, não podia fugir à regra toponímica que lhe determinava o nome "Porta de Portugal", como era uso naquele tempo.

Ao ser fechado o amuralhado urbano (cerca nova), a Porta de Portugal não podia deixar de ostentar um certo aparato, que um historiador descreve assim, referindo-se à porta: "...tinha duas majestosas colunas de pedra".

A Rua Nova teria nascido a partir dessa Porta para o interior da cidade. Várias indicações permitem-nos admitir que no ano de 1503 (reinado de D. Manuel), a Cerca Nova estaria concluída. D. Sebastião, numa das suas visitas a Lagos, em 1573, terá entrado por essa porta.1

Com o decurso do tempo a rua deixou de ser nova, mas o facto de por ela passar a conduta que abastecia a cidade de água outorgou-lhe nova toponímia passando a chamar-se Rua do Cano.

D. Sebastião, de triste história, cercado de aduladores e espiões de Espanha, monarca jovem e inexperiente, de educação profundamente religiosa ministrada por um membro de uma ordem religiosa criada em Espanha e fortemente implantada por toda a Península, dificilmente dava um passo sem o conhecimento da Corte de Espanha. Urdia-se, com todos os pormenores, a união dinástica, e a coroa dupla para uma só cabeça, a de Filipe II. Alcácer Kibir foi o fim trágico de um rei e de um sonho, e o povo de Lagos chorou por aquele que lhe outorgara o estatuto de cidade, e que das suas areias douradas partira para não mais voltar.

Ficou registado, para a História de Lagos, a passagem do rei menino por essa Rua Nova, hoje Rua da Porta de Portugal.

Ao lado da Porta de Portugal erguia-se, em parte sobre o mar em parte sobre a terra, o baluarte do mesmo nome, defendendo uma posição estratégica num ângulo do amuralhado voltado a Norte e Este.

A Norte do baluarte existiam os estaleiros navais, que até 1960 ainda aí funcionaram, e a Este, do outro lado do rio, o arraial das armações que pescavam na baía ou nas proximidades. Merece relevo a importância deste baluarte não só sob o ponto de vista militar como pela defesa que permite dessa importante zona de actividade económica da cidade.

Não se sabe, com exactidão, como seria o estuário da Ribeira de Bensafrim nessa época, elemento fundamental para avaliar a real importância da rua. Sabe-se que o estuário, ou estuário-laguna, foi sofrendo ao longo dos tempos um processo de assoreamento gradual, com períodos de maior amplitude do fenómeno, consoante a intensidade das chuvas. A Serra do Espinhaço de Cão, como o seu nome indica, deve a sua configuração à semelhança com a espinha de um cão de estrema magreza. Aí, a erosão do solo, provocada pelas chuvas, agravada pela falta de conveniente arborização, proporcionou a deslocação de enormes massas de terra barrenta e detritos que vieram depositar-se no estuário da Ribeira, aliando-se às areias trazidas pelas marés, diminuindo a profundidade e comprometendo a sua navegabilidade, constituindo-se, por outro lado, um fundo lodoso.

Hoje, quando as chuvas são mais intensas a água barrenta tinge toda a ribeira e estende-se várias milhas pelo mar. Não há, em léguas em redor, outro curso de água onde o fenómeno assuma esta intensidade. Uma contrariedade da Natureza a esta nossa terra, que com o decorrer do tempo, tornou cada vez mais inoperante o seu porto interior.

Quanto à arborização ou reflorestação da zona serrana, que tanta madeira deu para a construção naval, esta nunca aconteceu, nem tão pouco constituiu preocupação das autoridades que, acredito, nem sequer tiveram consciência do prejuízo que daí adviria no futuro. Todavia, num documento resgatado à fúria destruidora de um Vereador da Câmara Municipal de Lagos, que nos finais dos anos 70 ordenou a destruição de grande parte dos arquivos municipais, documento esse datado de 1849, e que constitui quase um tratado de ecologia, são evidenciadas as enormes vantagens da arborização.

Quando da estadia de D. Sebastião em Lagos a rua já tinha várias moradias, dum só lado, pois do outro existia uma alta muralha que unia os baluartes ribeirinhos, o da Porta de Portugal ao de S. Manuel e este à Porta de S. Roque. Assim, na rua, não muito distantes um do outro, existiam os dois baluartes, o da Porta de Portugal e o de S. Manuel sendo este mais tarde nomeado da Porta Nova quando esta foi aberta para o rio, após a demolição da Porta de S. Roque.

Muitas embarcações vinham fazer aguada à bica existente nesta rua, depois de concluído o aqueduto do Paúl da Abedoeira, construído por ordem do rei D. Manuel para prover a cidade de água potável. Tratou-se de uma obra de grande valor para a cidade e não só, pois o rei mandou informar todas as nações amigas que se dedicavam ao trato mercantil e à navegação na nossa costa, deste benefício ao seu dispor.

É notável como obra de engenharia, para aquela época, atendendo a algumas particularidades da sua concepção: extensão de 4.430 metros; desnível de dois centímetros por cada cem metros; 4 horas para a água percorrer esta distância, o que atesta a fraca aceleração do caudal.

Iniciada em 1490, no reinado de D. João II e concluída em 1521, no de D. Manuel, esta obra que durou 31 longos anos, esteve parada no reinado de D. Manuel obrigando o povo a "bater o pé" ao monarca nas Cortes de Évora, para que a sua conclusão se realizasse. Este bem público veio beneficiar extraordinariamente a cidade que possuía apenas poços intra-muralhas de água salobra. Logo que a água chegou à cidade foram construídas as bicas para a população se abastecer e os bebedouros para os animais. Os aguadeiros passaram a desenvolver a sua actividade de distribuição ao domicílio com maior comodidade e rapidez e todas as habitações estariam providas, por certo, com a sua cantareira.

A rua desembocava no Largo da Ribeira das Naus, não existindo ainda o actual edifício dos Paços do Concelho, e a Câmara Municipal situava-se no Largo da Ribeira dos Touros, hoje Praça da República ou do Infante, tendo á sua frente a Igreja da Misericórdia, de Santa Maria, possivelmente capela nessa altura, pois dizem ter funcionado como tal no Palácio dos Governadores.

A Porta de S. Roque, onde hoje se encontra o edifício da Câmara, dava passagem aos marítimos e outros trabalhadores que no outro lado do rio davam assistência às armações. Esta porta ficava em frente à Ermida de S. Roque, situada na outra margem do rio e cuja fundação é atribuída a milaneses e sicilianos que desde o reinado de D. Afonso III vinham pescando na nossa costa. Tendo sido erigida na outra margem do rio, a ermida atesta a dinâmica da ocupação dessa área, havendo, por outro lado, provas da existência de um estaleiro naval que aí laborou até 1930. Num armazém aí situado, ainda podemos observar vestígios dessa ermida.

Da descrição efectuada resulta uma imagem inequívoca de uma rua bastante animada, ao longo de toda a sua história, mesmo antes da construção do edifício da Câmara que ostenta uma data errada na verga de pedra da sua porta principal, pois é certo que a demolição da Porta de S. Roque foi efectuada em 24 de Abril de 1832 e só depois desta data poderia ter sido construído, nesse local, o edifício da Câmara.

Os tempos mudaram, os problemas de trânsito e outros foram surgindo e as soluções, não sendo as melhores,

permitiram as agressões ao património edificado.

A antiga Câmara situada onde hoje se encontra a Messe Militar (antigo Hospital Militar), caiu com o terramoto de 1755 obrigando a sua translação para sucessivas instalações provisórias até à sua instalação no edifício actual.

Após a demolição da Porta de S. Roque, foi aberta a Porta Nova em frente à Travessa das Escadinhas, facilitando assim o acesso à beira rio, do pessoal ligado à faina marítima e residentes na Freguesia de S. Sebastião.

A venda do peixe para consumo público era efectuada na lota, em pequenos lotes de pescado, ou na forma ambulante pelos peixeiros (mais concentrados na Freguesia e S. Sebastião, na Rua dos Peixeiros). A Câmara mandou, então, construir uma arcada para a venda de peixe, próximo do edifício dos Paços do Concelho.

Até aos confrontos entre liberais e miguelistas o sistema defensivo de Lagos esteve sempre operacional e, nesta altura, terá evitado um banho de sangue visto estar preparado o assalto à cidade pelos guerrilheiros do Remexido, em colaboração com alguns traidores dentro da praça. O ataque foi repelido com pesadas perdas da parte dos assaltantes.

Dos baluartes desta rua, foram demolidos o de S. Manuel ou da Porta Nova, para construção de um novo mercado de venda de peixe e respectivo acesso a um chafariz, e o da Porta de Portugal e a sua porta, para alargamento da rua ou estrada. O terreno restante foi destinado a um mini jardim que o povo logo baptizou de Jardim dos Amuados devido à disposição dos bancos aí instalados obrigar às pessoas a sentarem-se de costas umas para as outras.

Nesta rua esteve instalada uma das mais antigas fábricas de conservas de peixe, a famosa fábrica da Porta de Portugal. Em 1515 (?) um incêndio que durou oito dias destruiu-a completamente. A violência do fogo foi tal que estalou o lancil de pedra do outro lado da rua.

Um relato da altura, atribui a causa do incidente a um operário que terá entornado junto a uma caldeira um recipiente de combustível que transportava e que logo se inflamou, propagando-se as chamas por todo o edifício. E assim desapareceu uma boa unidade fabril que terá sido também uma das melhores escolas da época, para os soldadores. No espaço até aí ocupado pela fábrica foi edificado o actual mercado municipal. Corria o ano de 1924, assim o atesta a inscrição da sua fachada.

A Câmara Municipal dessa época terá sido, sem dúvida, das mais dinâmicas que este Concelho teve. São dessa altura inúmeras obras de pavimentação de ruas, o Mercado Municipal e o Caminho de Ferro, devendo-se este último à forte insistência junto do Governo. Os autarcas de então possuíam um apurado sentido municipalista que, após a queda da 1ª República, infelizmente se foi perdendo. Para além do executivo camarário existia ainda o Senado, composto por um alargado número de indivíduos representativos das várias classes sociais e das diferentes tendências políticas. À Administração do Concelho, órgão administrativo com algumas funções jurídicas e directamente dependente do Presidente da Câmara competia: disciplinar a cidade na preservação dos bons costumes, na resolução dos pequenos delitos, e velar pelo cumprimento das posturas municipais. Para isso possuía um corpo de funcionários próprio que podia, em caso de necessidade, articular a sua actuação com as autoridades policiais e judiciais.

Com a queda da 1ª República toda a autoridade administrativa das Câmaras se foi esvaindo, culminando o processo de desintegração do poder municipalista com a alteração do Código Administrativo preconizada pelo Estado Novo, um Estado centralista e ditatorial.

A rua continuou a ser movimentada, por ser uma via de acesso ao Caminho de Ferro, Praça da Verdura e Praça do Peixe, sendo ainda a saída da cidade mais utilizada. De aspecto radicalmente diferente do actual, a fisionomia desta zona apresentava edifícios baixos, abundando as tabernas do peixe frito além de uma variedade de outros modestos estabelecimentos, incluindo um pequeno hotel.

Com a construção da Avenida dos Descobrimentos, ou marginal, a Praça do Peixe foi demolida. O Mercado Municipal foi adaptado às novas exigências do abastecimento público e muitos dos estabelecimentos comerciais desta rua mudaram de ramo, e de proprietário, sofrendo adaptações para a actividade do turismo. Hoje, o suporte económico desta cidade.

Extinguiram-se as indústrias que, em tempos, fizeram a prosperidade desta terra. Desapareceram as fábricas de conservas de peixe, a pesca, e uma variedade de actividades correlacionadas. Desta forma, os sectores primários da Economia perderam expressão, dando lugar à indústria do turismo que, não obstante a definição nada tem a ver com actividade industrial mas sim e apenas com o Sector Terciário ou dos Serviços.

Nesta rua, em 1904 (?), junto à antiga Praça do Peixe, foi colocada, pela mão do Rei D. Carlos, a primeira pedra para a construção dum porto interior. Obra que nunca foi realizada. Quando foi demolida a Praça do Peixe ainda se procurou a caixa de lata com as moedas aí deixadas na altura do lançamento dessa primeira pedra. A pobreza do metal das moedas era tal,que não se encontrou mais do que uma amálgama metálica dificilmente identificável.

Aqui, sempre se situaram os mercados

de abastecimento público: junto à Câmara, a arcada de que existe gravura da época atestando a sua localização; na antiga praça do poço, hoje Praça Luís de Camões, funcionou ao ar livre o mercado das verduras. Demolidos os antigos mercados desta rua tudo se concentrou no actual mercado. Devido à sua dinâmica, era nesta rua que se exercia o comércio ambulante, conferindo ao local um ar típico e pitoresco.

A venda da batata doce, cozida no local, em grandes panelões segundo um sistema de cozedura pelo vapor, já que os recipientes possuíam uma grade com furos que evitava o contacto do fruto com a água. Inesquecível, a textura macia da batata e o aroma adocicado da erva doce utilizada como condimento, logo ao raiar do sol, à laia de "mata bicho" para os trabalhadores da madrugada. A acompanhar, uns copos de aguardente de medronho.

Após a construção da avenida marginal, foi construída a Estação dos Correios que, segundo os entendidos, é exemplo de uma arquitectura pobre. Projecto imposto, não se sabe por quem, que o terá acolhido após rejeitado noutro município.

Ao invés, o nosso Mercado Municipal é um edifício que marca uma época de arquitectura simples, bonita e funcional. As portas, com ferro trabalhado, têm sido motivo de elogios por parte de entendidos e deverão integrar o património da arquitectura do ferro forjado, actividade bem representativa da nossa cidade.

A rua de hoje tem um aspecto diferente de outrora, perdeu a identificação de uma cidade de pescadores e conserveiros. É uma zona de lazer, quer diurna, quer nocturna. Muito iluminada, com a sua sementeira de globos de vidro que, de uma vista mais elevada, parece um céu estrelado. Tudo se vai modificando e até a luz que outrora iluminava o chão, agora é para ser apreciada das alturas. As gaivotas, com tanta iluminação, alteraram os seus costumes e num frenesim de gritos e pios vão acompanhado os noctívagos frequentadores de boites e bares, estrangeirismos que vieram substituir as nossas tabernas.

Umas fontes com repuxos puxam e esguicham a água em "circuito fechado", equipamento disponibilizado para os noctívagos suavizarem a ressaca, a altas horas da madrugada, é o "curtir".

Um quadro electrónico, em duplicado, vai dando conta das horas e das temperaturas, e outras utilidades, advertindo os munícipes dos seus direitos e deveres mas, com tantas intermitências, que as pessoas, sobretudo os mais vividos, vão duvidando desta era da electrónica.

Espero que tenham apreciado este pequeno passeio. A rua, essa, merece muitos mais passeios, muitas mais histórias e... muito mais atenção.

 

1 - Itinerário de El-Rei D.Sebastião - p.268

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A Ribeira e o Sino da Lota

por José Carlos Vasques

 

Desse local, poucos, certamente, se recordarão. Onde estava o Sino, o salva-vidas, a taberna do Joaquim Polícia, as fábricas do Santana, do Frederico Delory, do Paolo Cocco e a de São Gerardo, e a taberna da tia Páscoa.

Quando o Sueste apertava e o sino tocava para a lota, e o peixe não podia ser vendido no cais por os barcos não poderem atracar, recorria-se então a outro local. Era num pequeno abrigo que existia junto ao Forte do Pau da Bandeira, em frente à taberna do Joaquim Polícia.

Alguns anos antes, tinha sido iniciada a construção de um cais que nunca foi concluído denominado Cais dos Pescadores, no mesmo local onde se encontra hoje o paredão que protege a doca de recreio. Este pequeno abrigo, à falta de melhor servia, bastando, para as várias necessidades dessa zona ribeirinha.

Este local de contacto e intercâmbio com o mar possuía os seus encantos e atractivos e a riqueza que lhe conferiam os dois magníficos momentos proporcionados pela Natureza, a Baixa-mar e a Preia-mar. Fenómenos que subjugam a nossa imaginação e que emprestavam um encanto especial a esse lugar, alternadamente, tão longe primeiro e tão perto depois.

A taberna do Joaquim Rocha, sobejamente conhecido pelo Joaquim Polícia tinha muitos pássaros engaiolados e, logo pela manhã, apareciam outros "passarões" que ali iam "molhar o bico" nuns copitos de aguardente. Era o "mata-bicho". Desafiavam, depois, os canários assobiando perto das gaiolas mas, o sopro "aguardentado" tinha efeitos perversos para as aves canoras que, rapidamente, fugiam mudos para o poleiro mais afastado. Se os queriam ouvir ao desafio, o melhor era esfregar uma rolha de cortiça humedecida numa garrafa de vidro e o som assim, bonito, agradava e estimulava a passarada.

Para muitos, recordar os tempos idos não passa de um exercício fastidioso, todavia, a História e a Ciência têm a sua origem no passado e a ele tudo devem. A esse somatório de acontecimentos que se vão acrescentando chamamos evolução, e à sua rentabilização e aproveitamento pelos homens chamamos Progresso. Considerava-se, nesses tempos, que Lagos era uma terra desde sempre abandonada pelos poderes públicos, e isso foi uma verdade incontestável.

Várias estruturas de importância capital foram iniciadas para logo, em seguida, caírem no marasmo e no abandono sem conhecerem a sua conclusão: o tal Cais dos Pescadores; o Porto de Abrigo (interior), cuja primeira pedra foi lançada pelo rei D. Carlos I (por não haver mais nenhum com esse nome antes dele); e o projectado grande porto, da autoria do Eng. Abecassis.

Todas as obras concluídas foram feitas por força de circunstâncias e interesses de nível exterior à cidade de Lagos:

- O Cais Novo, pela vergonha de um rei ter desembarcado numa zorra, por não existir local de embarque e desembarque apropriado, assunto que mereceu glosa satírica de Salazar Moscoso: "Terra onde o Rei desembarca numa zorra. Terra de merda, terra de porra"

- A Avenida dos Descobrimentos, por força das Comemorações Henriquinas, concluída apressadamente, teve de ser complementada, mais tarde, com outra obra, do outro lado, dado que o mar a podia destruir. Pois em dias de tempestade e de grandes marés a água invadia a parte baixa da cidade. Com a Avenida da Guiné, construída nos anos da Segunda Guerra Mundial, depois desaparecida, tinha acontecido o mesmo. Mas a lição não serviu de emenda (anos de 1931 a 1942).

Outro projecto houve, para a Avenida dos Descobrimentos, que foi posto de parte por não passar junto à cidade e por pedido ou imposição do comércio lacobrigense, que dizia colidir com os seus interesses. Esse projecto, dizia-se, respeitava a relação milenar da cidade com o mar, não a descaracterizando portanto.

Ainda um outro projecto, esse sim, feito com pés e cabeça e ensaiado no LNEC, posicionava o verdadeiro porto no outro lado do rio. No local, segundo se dizia, da antiga barra. Zona profunda, sem rocha, de fácil dragagem como se viria a verificar com a actual Doca Pesca. No entanto, Salazar rejeitou o projecto por o considerar muito dispendioso, quando afinal, a avenida foi muito mais dispendiosa.

Não confundamos porto com avenida, esta é uma rodovia. A avenida, panorâmicamente agradável é uma zona razoável de lazer, embora, com alguma frequência, sujeita à nortada. Em dias de Levante e noites calmas é um lugar aprazível.

A construção da doca de pesca deve-se ao novo ambiente político proporcionado pela Revolução de 1974, assim como o refundamento do canal de acesso que, necessariamente, tinha de ser executado. Lamentavelmente essa obra não foi alargada ao exterior dos molhes, evitando-se assim o encapelamento das vagas à entrada do canal.

A Marina de Lagos é uma obra particular que contou, no entanto, com participação de capitais públicos destinados a fomentar o Turismo, hoje indústria básica e pilar da economia do Algarve.

A "Ribeira" tem um significado muito próprio e constitui um importante referencial ao dinamismo e ligação à grande actividade marítima. E isso é válido, quer em Lisboa quer no Porto, quer em Lagos, contribuindo em larga medida para o engrandecimento destas cidades.

Que o Rei desembarcou numa zorra, ninguém o pode negar, pois existe um registo fotográfico que o documenta. Aí, é identificável um indivíduo, que empurrava a zorra, cujo apelido era Fonseca. Conta-se, a este propósito, que o Rei ao desembarcar de tão singular veículo, desequilibrou-se e o Fonseca prontamente segurando o Rei, evitou a queda, dizendo: -"Vossa Real Majestade está nas mãos do Fonseca de Lagos". Este dito andou largos anos em voga sendo reproduzido quando alguém amparava ou evitava a queda a outrém.

A "Ribeira" simboliza perfeitamente uma vida inconfundível, quase uma "universidade" da vida. Até teve reitor: Qual o lente capaz de calcular quantos milheiros de peixe tem um barco de sardinha grande, média, ou pequena; que douta cabeça teria capacidade para dar o "chui" na altura própria, em linguagem adequada, durante o decrescente do preço do vendedor, à velocidade de um bólide?

A "Ribeira" foi uma escola de virtudes, de manhas, de sobrevivência, de coragem ante o perigo e também, a grande fonte de receita do Estado, esse eterno explorador da grande classe laboriosa dos pescadores.

Desde tempos remotos, quando o Algarve era uma colónia do reino de Portugal, a partilha do pescado reverteu, sempre, com uma parte de leão para o monarca da altura (a ponto do próprio clero chamar, para isso, as atenções régias).

A importância da "Ribeira" reflecte-se, também, na arquitectura e na definição estratégica dos espaços urbanos. A imponência da sua porta, a "Porta da Ribeira", hoje Arco de S. Gonçalo, tão forte, tão bem guardada, não tem paralelo noutra porta da cidade. Pudera, era por ali que entrava e saía o alimento, o peixe real, o atum salgado para as longas viagens dos Descobrimentos. É sagrado!

O que és e o que foste!

A "Porta da Ribeira" indica-nos onde se realizava a primitiva lota e todo o movimento do desembarque do peixe.

Com o passar dos tempos e o desenvolvimento das estradas, e afastado o perigo dos assaltos à cidade, as construções de apoio à pesca foram-se encostando ao exterior da muralha. Em que época(s) se terão desenvolvido estas implantações é ainda um assunto a investigar.

Havia na "Ribeira" uma casa isolada que nas grandes marés (marés vivas), ficava cercada pelo mar. A casa, de dois pisos, tinha no piso térreo várias aberturas para o exterior e tinha no seu interior um banco de pedra, corrido, encostado à parede, bem como a respectiva escada de acesso ao piso superior, também em pedra. No terraço (açoteia), o seu proprietário procedia à seca de polvos. Dizia-se que essa casa fora pertença do Infante D. Henrique. Efectivamente deverá ter pertencido a alguém importante. A sua arquitectura evidenciava-a das outras construções adjacentes pois mantinha ainda a traça primitiva. A implantação desta casa no local era, para muita gente, algo bizarra, e nunca foi esclarecida a sua origem (possivelmente era onde o peixe ia à praça?).

A memória colectiva, da imagem do Infante D. Henrique, entre as gentes modestas da cidade de Lagos nunca se apagou e muitos afirmavam que a dita casa foi do senhor Infante. Facto singular vincado no espírito dessas gentes que, curiosamente, nem o passar dos séculos apagou.

Com o desafogo do local, exigência da construção da nova avenida, a casa teria que ser demolida como todas as outras, no entanto, esta memória da sua ligação ao ilustre personagem da epopeia dos descobrimentos criou grandes indefinições acerca da sua demolição. Esta, porém, veio a efectuar-se não obstante a enorme resistência que a sua estrutura ofereceu ao camartelo, como se as próprias paredes estivessem imbuídas pela pertinácia do Infante.

O Sino da Lota nunca recebeu, nas poucas citações ou descrições de que foi alvo, o merecido destaque, foi, ao invés, sempre tratado como coisa acessória e sem importância. Temos pois, em abono da verdade, que contrariar essa tendência e evidenciar a importância da sua função ao longo dos tempos.

Segundo reza a História, a introdução dos sinos nas igrejas remonta ao séc. VII da nossa era e deve-se tal facto ao Papa Sabiniano. A finalidade era chamar os fiéis para a oração.

O Sino da Lota servia para dar o sinal de chamada do comprador que assim avisava acerca da "teca" de peixe para venda na lota. Contudo a sua missão ia mais longe. Era, nalguns casos, arauto de tragédia. O som rápido, como a dizer "venham, venham depressa...depressa!" causava arrepios. Estávamos perante uma tragédia, um naufrágio, alguém pedia socorro. Na calada da noite, o som a rebate era horrível, acordava as pessoas que, apavoradas, vinham à rua atónitas, esperando sempre o pior. Os passos apressados ecoavam pelas ruas mal iluminadas. As botas grossas batiam fortemente na calçada, aumentando o pavor. As vozes desencontravam-se mas, no fundo, os comentários eram sempre os mesmos: -"Não temos porto de abrigo ... e o salva-vidas onde está?". Efectivamente, a carreira para o bota-abaixo do salva-vidas havia há muito apodrecido, e a embarcação jazia como um morto no seu sarcófago, no Forte do Pau da Bandeira.

No período de 1920 até 1943 o tema mais debatido era igual ao que sempre fora e haveria de ser no futuro, o Porto de Abrigo.

"...A noite estava escura como luto de viúva. O sino da lota tocara a rebate. Alguém ouvira o grito do aflito e pelo sino dera o alarme pedindo auxílio. O marulhar da forte vaga de Sueste abafava a voz do náufrago, e os olhos que queriam ver eram impotentes para penetrar no negrume da noite. A tragédia estava consumada. Esperar o nascer do dia era a única solução...

As pessoas que regressavam da Ribeira vinham a passos lentos, em silêncio, como que acompanhando uma marcha fúnebre. Mais um pescador lá ficara nas ondas do nosso mar..."

 

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A Meia Praia e o seu Plano de Urbanização

por José Carlos Vasques

 

Artigo baseado na comunicação que apresentei, em nome do CEMAL,

na reunião de 4 de Outubro de 2003 da Comissão Municipal do Ambiente.

 

Acerca do Plano urbano/turístico para a Meia Praia, zona muito sensível em termos ambientais e paisagísticos começo por referir que já em 1960, na Câmara presidida por José Ferreira Canelas, foi contratado o Arquitecto Miguel Jacobety para execução de um estudo de urbanização para duas zonas distintas: aquém e além Hotel da Meia Praia. Esse trabalho não chegou a ser entregue (opúsculo “Quatro anos na Câmara Municipal de Lagos, de José Ferreira Canelas, Tipografia Ferreira - Lagos 1963).

“A Câmara passou mais tarde a ter outro Urbanista, o Ex.mo Sr. Frederico George, com o qual contratou em Dezembro de 1962 os trabalhos de urbanização seguintes: zona turística da Meia Praia... (...) ... até ao fim de 1963 ainda não estava entregue nenhum desses trabalhos” (idem, obra referida).

Presentemente, estamos no ano de 2003, foi dado conhecimento do Plano de Urbanização da Meia Praia, cuja autoria do projecto dificilmente se vê à lupa.

Da reunião da Comissão Municipal do Ambiente, de 3 de Outubro de 2003, depreende-se que o Plano da Meia Praia carece de um estudo ambiental que não está feito e, parece, nem perspectivado. Achamos que é sempre arriscado dar notas afirmativas sem a existência de um suporte de apoio.

Opina-se pois (por redundância), que os interesses dos privados não devem colidir com os interesses públicos colectivos, os dos munícipes em geral, e nomeadamente os dos utentes dessa zona de lazer e de grande valor ambiental, respeitando-se as premissas do tão apregoado desenvolvimento sustentado.

Assim: 1 - Nunca foi explicitada qual a área do território (em termos percentuais no cômputo total da zona da Meia Praia), destinada a fruição pública, isto é, de todos nós.

2 - Afigura-se contrário aos princípios democráticos, que extensas zonas sejam privilégio de privados e que esse ordenamento seja consequência de aprovação duma autarquia. Um assunto a esclarecer.

3 –  Não encontramos explicação para o facto de se apresentar uma explosão no crescimento populacional para aquela zona, cifrado em 14 mil habitantes, para os próximos anos, quando a população da cidade (censo de 2001), se cifra em 18.010 habitantes.

4 – Em termos de segurança no que toca a sismicidade a Meia Praia possui uma estrutura mais fraca do que a cidade pois os terrenos são, na sua quase totalidade, compostos por areias e argilas. No Molião existem construções modernas que, mesmo com características anti-sísmicas não ultrapassam os três pisos. Não discordamos, genericamente, do que é aconselhado no artigo 19º do Plano, mas sim da eventualidade de construção de unidades hoteleiras com maior quantidade de pisos.

5 – Discordamos da ocupação do sistema dunar com espaços privados e defendemos que toda a zona dunar e da linha de água seja para fruição pública e colectiva. Defendemos a filosofia de que qualquer concessão de apoio de praia tem como destinatário o público em geral e, como tal, a concessão deve ser encarada como precária e transitória por parte dos operadores que as exploram.

6 – É necessário quantificar com rigor a população fixa (residente) a fim de permitir definir a dimensão das estruturas e dos serviços (saúde, ensino, etc) públicos essenciais.

7 – A intervenção a esta escala, numa área ambientalmente tão sensível implica a adopção de algumas medidas em relação ao Rio de Alvor: definição inequívoca das margens do Rio e devolução de parcelas que foram subtraídas à zona lagunar; delimitar as margens de protecção da via férrea, de acordo com o estabelecido pela Lei, e considerar a ampliação para via dupla (já consignado no Plano).

8 – Respeitar os lugares de interesse arqueológico e o património histórico edificado com especial destaque para o Forte da Meia Praia.

9 – Criar um apoio especial de praia para deficientes, atendendo ao elevado número de visitantes que Lagos recebe, nessas condições.

10 – Acautelar o escoamento das águas residuais, garantindo que não serão derramados no sistema lagunar, ou na linha de água, através de execução de obras que tenham em apreço as características geológicas dos terrenos (questão da impermeabilidade natural dos terrenos e consequente condução de resíduos para esses locais, frágeis, em caso de ocorrência de rupturas; questão da capacidade da ETAR de Lagos em receber mais estes efluentes).

11 – Tomar especial atenção ao tratamento fito sanitário dos relvados e à utilização de pesticidas e fertilizantes na agricultura, no sentido de evitar o escoamento desses produtos nocivos para as linhas de água, e daí para a laguna de Alvor.

12 – Garantir a impossibilidade e indisponibilidade futura de construção de uma Marina ou estrutura semelhante no Rio de Alvor, já que isso constituiria a sua morte, a médio ou longo prazo. (atente-se ao disparate de possuir 3 Marinas numa extensão de 8 milhas marítimas). A Ria de Alvor integra uma vasta área protegida por Lei (ver mapa das áreas protegidas in Jornal Público, edição de 29/10/03). Actue-se em conformidade com esse facto.

Nota final: Considerando as mais valias que os operadores privados prevêem retirar das várias actividades a desenvolver no local, deve a autarquia procurar garantir a redução dos seus encargos com os equipamentos públicos a criar, distribuindo esse custo pelos operadores privados, dado serem eles os seus principais beneficiários.

 

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Ó Praia do Porto de Mós! O que foste, e o que és

 

por José Carlos Vasques

 

Por vezes chegam ao nosso conhecimento casos tão insólitos que produzem grande turbulência na nossa mente. Um desses casos refere-se à destruição das casinhas e do alvo da carreira de tiro que existiam na praia do Porto de Mós. Foram destruídas.

Coisas há que, por banais que pareçam, hão-de ser-nos sempre queridas, quer por fazerem parte do nosso quotidiano quer por emoldurarem momentos especiais de ócio que a elas nos ligam. As mais importantes integram o património edificado cuja memória histórica e colectiva urge preservar. Os mandatários dessa e de outras destruições escondem-se sempre no anonimato, como diz acertadamente o nosso povo: “o mal feito nunca tem dono”.

Não se sabe ao certo se essas pequenas casas de um só piso serviram para guardar aprestos das armações do Porto de Mós, ou se foram apenas arrecadações de munições da carreira de tiro. A segunda hipótese é menos viável dado o isolamento do local e os cuidados que esse tipo de material requer. Talvez tivesse tal serventia apenas como apoio nas alturas em que se praticavam os exercícios de tiro.

Toda essa estrutura edificada fazia parte da memória colectiva e daí a sua destruição constituir acto condenável.

A zona do Porto de Mós sempre se mostrou rica, mormente pelos contrastes que apresenta: falésia, arribas, praias de areia, seixos rolados, grande quantidade de fósseis, laredos...

As arribas vão desde o sítio do alvo da dita carreira de tiro até à Rocha Negra, numa extensão de aproximadamente dois mil metros. Ao longo desse percurso pode-se observar nos cortes das arribas, as diferentes camadas geológicas estratificadas, como páginas de um livro que contam a história da formação da Terra. Tudo é grandioso. Dos 109 m de altura máxima o morro desce a pique vários metros e depois segue em declive para Sul, até ao mar. No cimo, o planalto da Atalaia que também foi conhecido por planalto de Santo Estêvão, nome que adveio de uma ermida que existiu na vertente Oeste, debruçada sobre a povoação da Luz e hoje completamente arruinada e de culto olvidado.

Quem caminhar na baixa-mar pelo laredo até à Rocha Negra ficará extasiado com a grande quantidade de aves que nesses rochedos nidificam. Os pombos bravos ou pombos da rocha, que aí abundavam, têm sido dizimados pelos caçadores. A todo aquele afloramento rochoso acodem inúmeras aves, durante todo o ano, por ali encontrarem água para matar a sede. São minúsculas fontes que brotam da encosta e suportam caniços que verdejam junto delas. Em anos de chuvas abundantes formam-se pequenas cascatas que correm para o mar.

Nos interstícios das pedras afloram uns veios de argila de cor cinzento azulado, muito procurada para uso terapêutico e de propriedades afamadas que levam a abundante colheita e a aplicação sobre a pele, na busca de cura para os mais variados achaques. E nisto se acham naturais da região mas também turistas e outros visitantes. As propriedades medicinais das argilas de há muito se conhecem e já em 1896 o abade Sebastian Kneipp cita as virtudes da sua aplicação no seu livro “A cura pela água”.

No laredo da praia do Porto de Mós algumas lontras fazem, ainda, criação. Animais esquivos, escondem-se mal sentem a aproximação humana.

Lagos tem topónimos interessantes que carregam consigo histórias ricas e integram a própria História do concelho. Tal é o caso do Cerro das Mós e do Porto de Mós. No Cerro das Mós era feita a extracção de pedras para mós, quer de azenhas quer de moinhos de vento, trabalho iniciado e concluído no local. Na praia do Porto de Mós, pela mesma razão, todavia as mós aí produzidas eram mais pequenas e destinavam-se à moenda de cereais em uso doméstico.

Quando, na baixa-mar, a praia desassoreia pode-se observar, em certo sítio, os sinais de tentativas de extracção de mós. Trabalho inacabado. A pedra destinada para as mós é em tudo semelhante em ambos os locais. Trata-se de uma rocha de conchas fossilizadas (calcário conquífero) e de grande dureza.

A praia do Porto de Mós está ligada à cidade de Lagos por laços que se escondem na tradição, nas actividades militares, nos momentos lúdicos e também nas ocorrências trágicas.

O dia 1º de Maio foi, durante muitos anos, o feriado municipal e mesmo quando o deixou de ser (passou para dia 27 de Outubro) a tradição manteve-se. Nesse dia despovoava-se a cidade. Nela permaneciam, apenas, os doentes acamados e os seus enfermeiros. Os demais partiam para o Porto de Mós, que se enchia de gente provida de farnel para o dia e papagaios de papel - feitos de tiras de cana e papel de seda de cores vistosas e grandes rabos - que ondeavam ao vento. Parecia um concurso de papagaios em despique de volteios e curvas caprichosas. Se o vento era mais forte, as comidas guardavam-se nas casinhas (as tais que foram destruídas), ao abrigo das areias que o vento levantava.

Durante alguns anos habitou em casa junto à praia um indivíduo já idoso, conhecia a praia e todos os seus recantos como mais ninguém. Vivia com grandes dificuldades mas, naquele ambiente saudável, não sofria de grandes maleitas e subsistia pescando e mariscando. Pobre, engenhava no que podia para vencer as dificuldades. Fumava, e tinha no seu cachimbo um companheiro de pensamentos e recordações mas, como não ganhava o suficiente para se abastecer com as necessárias onças “Duque” juntava ao tabaco uma planta que colhia à beira dos valados. As candeoulas (salva brava) eram secas à sombra e depois de cortadas, misturadas com o tabaco. Até a limpeza do cachimbo assumia foros de verdadeiro ritual diário. Um dia, este senhor João Raposo, encontrando-se a mariscar, teve uma grande surpresa. Fisgou um polvo que se encontrava num buraco de rocha e ao puxá-lo para fora verificou que este trazia umas coisas amarelas, de brilho intenso, agarradas às ventosas. Eram moedas de oiro. Vasculhado o buraco, retirou mais umas poucas. O polvo, para se defender da sua arqui-inimiga moreia arrasta consigo conchas, pedras e toda a sorte de objectos que lhe permitam construir um escudo eficaz. Já com o tesouro no bolso dirigiu-se à cidade a fim de indagar que moedas eram aquelas, ao que um entendido lhe terá dito que eram dobrões espanhóis. Trocou-os por moeda corrente a um e outro, conhecidos e amigos e... continuou pobre. Depois do polvo morto acabou-se o tesouro. Certamente o Raposo nunca ouvira falar da fábula da galinha dos ovos de oiro. Este episódio aconteceu em finais dos anos 40.

A notícia do achado dos dobrões divulgou-se e muitos foram os pesquisadores que, na praia, andaram em busca de um galeão espanhol que aí tivesse naufragado 400 ou 500 anos antes. Porém, não consta que alguém tenho encontrado o quer que fosse, nem há registo de qualquer naufrágio desse tipo.

Em finais dos anos 20 banhavam-se uns jovens na praia do Porto de Mós, num mar um pouco agitado e eis que uma vaga maior arrebatou dois irmãos que mal sabiam nadar e assim perderam a vida à vista dos outros companheiros, que nada puderam fazer. Eram filhos de um Capitão do exército, de nome Varela. Enquanto perdurou a consternação geral e a memória do trágico acidente a praia ganhou fama de insegura e reduziu-se consideravelmente a sua utilização como praia de banhos.

A praia do Porto de Mós foi sempre um retiro ideal para os que buscavam isolamento e tranquilidade, a beleza da sua panorâmica convidava à meditação e à contemplação da Natureza. Outro aspecto interessante é a sua constante mutação, resultado das correntes marítimas que ora a invadem de areia até às falésias, ora a desnudam deixando à vista o fundo rochoso ou milhões de calhaus que se entrechocam sugerindo alguma música endiabrada dos famosos Rolling Stones.

Quando olhamos para o morro da Atalaia perdemo-nos em interrogações e conjecturas. Em tempos, deveria ter entrado pelo mar: como seria então a sua configuração, quantas décadas ou séculos se passaram desde então?

A falésia surpreende pelos seus contrastes. No trajecto até à praia encontram-se duas formações rochosas que saltam à vista por parecerem deslocadas do contexto geológico, e tal deve-se quer à sua coloração quer à configuração em forma de cunha, entrosada, a toda a altura, na rocha dominante. De acordo com os geólogos, estas formas parecendo chaminés, são pequenas crateras de antigos vulcões. Na sua génese estará um fenómeno de arrefecimento lento de que terá resultado uma rocha tão dura. A conhecida Rocha Negra, da Praia da Luz, de origem vulcânica teve, ao invés, um processo de arrefecimento mais rápido de que resultou uma rocha com pouca consistência.

O senhor Joaquim Correia Valarinho, que foi chefe dos antigos Serviços Municipalizados de Lagos trocou a vida citadina pela tranquilidade e isolamento da praia. Contava algumas histórias das suas pescarias, seu passatempo preferido e da sua companheira. Os aparelhos eram lançados na praia durante a baixa-mar e levantados na maré seguinte, dando lugar a alguns sucessos, quando o mar permitia. Há um caso insólito que merece ser contado. Certa vez, de todo o peixe preso nos anzóis só restava as cabeças. Tudo o mais havia sido comido, bem como parte dos aparelhos. Repetindo-se o caso, houve que reforçar tudo, com recurso a cabos de aço (dos travões das bicicletas), com anzóis soldados, na expectativa de apanhar o autor de tais danos. Na maré baixa, ao levantar o aparelho, a surpresa: um enorme cação ficara preso. Puxado para terra, ainda com vida, se verificou que tinha uma alheta quase decepada em consequência do esforço para se libertar e espanto maior, mesmo em seco começou a parir pequenos cações que instintivamente, e com grandes dificuldades, se arrastavam em direcção ao mar. A pesca foi adiada por uns tempos, aguardando o esquecimento do caso.

O mar de vez em quando arroja à praia, além de limos, os mais estranhos objectos. Contou o senhor Vilarinho que um dia encontrou um boião de vidro contendo um maço de cigarros, uma caixa de fósforos, uma pilha eléctrica e uma mensagem que esclarecia tratar-se de uma oferta e pedindo ao achador que comunicasse a recepção de tão singular encomenda. Apresentava endereço do remetente e solicitava as informações sobre data e local do achamento e informava ainda que o dito boião tinha sido lançado no Atlântico Norte, em navegação entre Inglaterra e os Estados Unidos. Tendo sido achado em Lagos, em Fevereiro do ano seguinte, lá seguiu a missiva dando conta de tal facto.

O Porto de Mós fez parte das fortificações militares dependentes da Praça de Lagos. A Bateria do Porto de Mós teve a sua história. A sua construção terá sido proposta a Martim Afonso de Melo, Governador e Capitão General do Reino do Algarve (1642 – 1646) e os seus trabalhos terão ficado concluídos em 1712. Tratava-se de uma plataforma voltada ao mar com pequenas construções na retaguarda e na ala direita. Uma servia de armazém e a outra de aquartelamento. Estava munida de duas peças de artilharia de calibre 6 - isto depois do terramoto de 1755, já que o que antes existia foi destruído. Hoje, o que resta e é visível fez parte do apoio à carreira de tiro que funcionava na praia e foi moradia do encarregado e guarda da mesma, o Cabo Barbosa e a sua conhecida família.

A maior parte das fortificações, além das habitações da guarnição, tinham uma cisterna que recolhia as águas da chuva (dos telhados e pavimentos) para gasto do pessoal.

As duas pequenas casinhas existentes na praia e que se dizem de apoio à carreira de tiro faziam, já, parte – por direito próprio – do património histórico e paisagístico para além de constituírem oportuno resguardo no caso das intempéries. Como atrás se denuncia, a sua destruição assume contornos de acto de vandalismo, abuso notório contra o nosso património colectivo.

O Porto de Mós tem, para além da conhecida e apreciada praia, uma vasta área antigamente agricultada e arborizada, com espécies da região em que dominavam as figueiras, amendoeiras e a vinha. Os acessos ao local eram constituídos por duas estradas: a da Torralta e a do Barranco. O Barranco do Porto de Mós é o esteio de uma linha de água com início na Ladeira Branca e términus no areal da praia. Os seus combros, povoados de amendoeiras, criavam uma paisagem muito bela, especialmente quando as árvores floriam, proporcionando motivo imperioso para longos e agradáveis passeios.

Os terrenos eram cultivados e havia grande abundância e variedade de aves, desde as migratórias às permanentes. Havia grande quantidade de alimentos e as condições geomorfológicas eram evidentes (proximidade do altiplano da Atalaia que proporcionava excelente plataforma de voo). O ambiente era saudável, em particular devido ao intenso coberto arbóreo e vegetal. As casas de campo, de apoio à agricultura encontravam-se dispersas e os seus habitantes partilhavam uma vida de campo e de mar. Com o surto turístico a paisagem descaracterizou-se, introduzindo-se novos relacionamentos com o espaço e com o ambiente. Promoveu-se, e promove-se ainda hoje, um desequilíbrio, em matéria de ocupação territorial, que resulta numa manifesta agressão ecológica e numa anarquia urbanista e ambiental. Até há bem pouco tempo o barranco do Porto de Mós não passava de um esgoto, a céu aberto, sendo utilizado pelas mais recentes construções aí instaladas.

Os organismos com responsabilidades ambientais estão, inexplicavelmente, alheios a estas questões. Para estes, e outros atentados no género, terá que haver uma voz troante que diga NÃO!

A praia do Porto de Mós deverá continuar a ser um lugar de lazer de eleição, integrada numa área de trabalho e com um ambiente que proporcione a meditação, o estudo ou a simples contemplação das suas belezas naturais.

 

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A Ermida de Nossa Senhora dos Aflitos

- São Pedro, o Pulgão e os Aflitos -

por José Carlos Vasques

 

Localizada próximo da estrada para Portimão e do sapal da Ribeira de Bensafrim e não longe do Molião, ergue-se uma pequena ermida de culto católico. A sua construção, segundo se presume, é muito antiga e surpreende nesse local isolado e, aparentemente, sem razões que a justifiquem. Porém, não é bem assim e, posto que para tudo existe uma razão, vamos passar a explicar.

Há longos anos teriam existido naquela área algumas villae romanas conforme atestam os vestígios de construções dispersas por um vasto campo arqueológico, já em parte estudado mas, com muito ainda por pesquisar em terreno, hoje, em fase de urbanização.

A ermida, segundo se pensa, e diz, teria sido construída no local duma antiga construção romana pois parece ter havido aproveitamento de materiais dessa e doutras construções que aí existiram. É quase uma regra que os locais outrora ocupados por civilizações da antiguidade assistam, ao longo dos tempos, à sucessão de povos e culturas que vão aproveitando o que os antecessores deixaram e, assim, mantêm permanentemente a ocupação do lugar.

Toda a zona envolvente atesta uma forte ocupação romana, o Molião, Lacóbriga e a estrada romana que por esse local teria passado a caminho da ponte que ligava as duas margens da Ribeira de Bensafrim. Os romanos procuraram, preferencialmente, uma fixação em terrenos férteis e próximos do mar, essa via de comunicação de primordial importância e inesgotável fonte de recursos. E outro tanto fizeram os árabes.

Não se sabe ao certo a data de construção da ermida nem a atribuição ao seu orago S. Pedro, em Latim Petrus, a pedra angular da Igreja Católica. Embora tratando-se de um apóstolo pescador, todavia, aqui não advoga a causa dos pescadores, convergindo a sua acção, neste local, para os agricultores.

As pragas que afectavam a agricultura eram, em tempos atrasados, encaradas como um mal de origem diabólica ou sobrenatural, levando as pessoas a recorrer a divindades.

A vinha foi, e ainda é, uma das culturas mais sujeitas a pragas e doenças, e uma delas é a praga dos pulgões ou afídios.

Durante longos anos toda a encosta da Meia Praia - extenso anfiteatro sobre a baía de Lagos, voltado a Sul – foi uma óptima zona para essa cultura. Até a grande extensão dunar que corre ao longo da referida praia estava, em grande parte, ocupada com a cultura da vinha.

Cabe aqui descrever esta cultura nos areais da Meia Praia e os esforços e imaginação que tal actividade implicava. A areia, sendo fácil de arrotear, ajudava esse cultivo, havendo a vantagem da existência de água doce no subsolo, ainda que em pequena quantidade, mas com permanência ao longo do ano e a pouca profundidade. Para captá-la bastava sobrepor umas barricas velhas e desfundadas e, pacientemente, ir retirando de dentro a areia, construindo assim as paredes do poço. O espaço para plantio ficava num plano mais baixo. De forma rectangular, era cercado por um talude de areia que defendia a vinha da rudeza dos ventos que aí sopram.

Todas estas pequenas cercas possuíam uma choupana que os viticultores construíam, formadas por um esqueleto de madeira revestido de junco e que lhes servia de residência temporária ou até mesmo, devido a falta de recursos, à sua fixação permanente.

A areia das dunas é pobre em nutrientes mas isso não constituía problema: o mar, em época de vendaval, todos os anos arroja à praia grandes quantidades de algas que, amontoadas longe da rebentação e depois secas, para facilitar o transporte, eram levadas para montureira onde se curtiam com outras matérias, formando adubo.

As castas que aí dominavam eram o negra mole castelo e negra mole carocho (este mais escuro), ambas de pele muito fina, desbagando-se facilmente com o vento, razão para proteger a vinha com altos taludes ainda que a mesma fosse de pequeno porte.

Por ser local muito soalheiro, beneficiando dos favores do astro-rei, cujos raios reverberavam na areia e devido, também, à adubação com algas impregnadas de preciosos sais, a uva aí produzida possuía elevados teores de doçura, bem como uma maturação temporã, sendo pois as primeiras a aparecer no mercado.

Na encosta da colina, as vinhas ocupavam grandes espaços e foi, em tempos idos, um bom rendimento dos proprietários locais, pesando muito na economia da nossa cidade.

As castas cultivadas eram mais resistentes aos ventos e indicadas para fabrico de vinhos de mesa, ganhando qualidade com o envelhecimento. As castas conhecidas eram as seguintes: - manteúdo; perum; crato branco; moscatel e boal (brancas) – Pau ferro; trincadeira; crato preto; bastardinho; além de outras igualmente tintas.

Havia uma relação muito íntima dos lavradores das redondezas com a sua ermida de S. Pedro, hoje Nossa Senhora dos Aflitos. O pulgão, quando aparecia em grandes quantidades, era mesmo uma praga. As folhas encarquilhavam, a seiva escorria pelas varas das vides e tornava-se pasto de outros parasitas. A planta, pode dizer-se, ficava sem "sangue", as uvas perdiam todo o vigor e delas não se podia fazer vinho que prestasse, nem em quantidade nem em qualidade. Os meios de combate às pragas não existiam, só restava aos lavradores o recurso à divindade. Falavam com o Prior e, da igreja de S. Pedro saíam o Padre e o sacristão com a caldeira de água benta, rezando e excomungando os pulgões. E foi assim que a ermida ficou conhecida por S. Pedro do Pulgão. Os tempos foram correndo, os conhecimentos evoluíram e os combates às pragas tornaram-se suficientemente eficazes, este recurso foi esquecido e a igreja mudou de nome, isto é, de orago. Perdeu-se em fé, ganhou-se em tradição!

As aflições são uma constante na vida das pequenas comunidades e na maioria das vezes provocadas pelos fenómenos naturais como as secas e as cheias. Na nossa região os períodos de chuva alternam, frequentemente, com longos períodos de seca, as culturas perdem-se por falta de água e os poços secam; estes fenómenos eram muito piores no passado, do que hoje. Os homens não podem comandar os elementos da Natureza e as mulheres, que comandam a vida doméstica, são as que mais sentem essas desgraças, então, recorriam à protecção de Nossa Senhora e, em procissão com o Padre, iam pelos campos de olhos no céu pedindo a Deus e à Virgem "Água de Misericórdia" e a ermida ficou de Nossa Senhora dos Aflitos.

É de longa tradição a festa anual desta ermida, que se pode dizer quase uma romaria, que tem lugar no último Domingo de Agosto de cada ano, sendo muito frequentada por gente do meio rural mas também por citadinos. Um dos costumes que mais caracterizava a festa consistia no elevado número de melões e melancias que, por todo o lado, eram postos à venda, e o hábito arreigado, por tradição, de no local serem comidos.

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Lagos e a Instabilidade Sísmica

Setembro de 2002

 

por José Carlos Vasques

 

 

Em 31 de Maio e 1 de Junho do corrente ano (2002) teve lugar no Auditório da Biblioteca Dr. Júlio Dantas uma reunião técnico/científica subordinada ao tema “Estudo do Risco Sísmico no Centro Histórico de Lagos”. A assistência de tão importante reunião era constituída por convidados. O auditório encontrava-se quase cheio, assinalando-se, como era de esperar, a presença do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lagos, do senhor Arquitecto do Gabinete do Centro Histórico de Lagos e os conferencistas Prof. Doutor Luís Alberto Mendes Victor, do Instituto de Ciência da Terra e do espaço; Prof. Sérgio Lagomarsino, da Universidade de Génova; Doutor Herculano Caetano da LP6, Paris; Prof. Veja Perez, da Universidade da Catalunha e o Prof. Francisco Garcia, da Universidade Politécnica de Valência.

A assistência compunha-se de técnicos relacionados com os assuntos dos temas a tratar, alguns funcionários dos serviços camarários e estudantes universitários. Embora a entrada estivesse condicionada a convidados foi permitida a um cidadão de Lagos, perante a convincente argumentação de se tratar de um assunto tão caro à sua sensibilidade e apego à história da sua terra. Parece que os jornais estiveram ausentes, por não terem recebido convite.

Assistiu-se a uma preciosa lição. Um misto de ensinamentos técnico/científicos e uma chamada de atenção para os gravíssimos erros que sucessivamente se vão consentindo e que deviam ser levados ao conhecimento de toda a gente.

Rememorou-se as desgraças ocasionadas pelo terramoto de 1755 quando o mar, em ondas gigantes, galgou a muralha que defendia a cidade destruindo tudo na sua passagem. Essas ondas entraram pelo estuário da Ribeira de Bensafrim arrastando tudo com extrema violência, quer no fluxo, quer no refluxo das águas do mar. Imaginemos o que seria hoje um fenómeno idêntico ao de 1755. Tudo o que está construído nesse terreno seria destruído: a Marina, a Escola Secundária e todas as outras construções e mais que tudo as vidas humanas que não há dinheiro que pague.

 

 

Lembremo-nos um pouco da nossa história

 

Que na praia de S. Roque existia uma Ermida cujo orago era S. Roque e que foi dado depois o nome a esse espaço de praia. Construída com grande solidez a custas de genoveses e sicilianos e em acção de graças pelas boas pescarias que aqui fizeram no reinado de D. João II. As ondas gigantes arrasaram-na por completo, restando hoje somente um aglomerado de alvenaria da sua torre num dos barracões existentes na praia. Todo o arraial das armações que pescavam na Baía e estaleiros navais tiveram o mesmo triste destino. As vagas que subiram pelo vale da Ribeira acima, cerca de quatro quilómetros, destruíram a ermida de S. João Baptista, o mais antigo monumento cristão de Lagos, que se diz ter sido da Ordem de Malta, segundo configuração de duas cruzes da porta que o distingue. Este templo só foi reedificado em 1805.

Esta gravura de Lagos do séc XVII, apresenta a ermida de S. Roque

edificada em 1490 e destruída pelo terramoto de 1755

 

As actuais igrejas ficaram arruinadas e foram depois reparadas, tendo a Igreja de Santa Maria da Graça, no sítio da Porta da Vila, ficado totalmente demolida e nunca foi reedificada. Os conventos, os cinco existentes em Lagos: (muito arruinados) Santo António, Santíssima Trindade, Irmãs Carmelitas, São Francisco ou Nossa Senhora da Glória e S. João de Deus, este demolido, passando a sua acção hospitaleira para o sítio hoje com o seu nome. Os paços do Concelho e a torre do relógio, tudo ficou demolido pelo sismo ficando a Câmara privada de edifício onde reunir, andando depois em casas emprestadas e outras de aluguer, em parte como hoje está. A Câmara, a torre do relógio e o convento de S. João de Deus situavam-se onde está hoje a Messe Militar.

Lagos tinha dois núcleos religiosos distintos: um situado no Rossio da Trindade com as igrejas de São Brás e a de Porto Salvo as quais foram totalmente destruídas e o Convento da SS. Trindade muito arruinado. O outro núcleo, na Praça do Município, hoje do Infante, com as Igrejas de S. Pedro, Senhora da Graça e convento de S. João de Deus e a igreja de Sta. Maria de Misericórdia ficando tudo muito arruinado, sendo esta última inteiramente reparada a expensas da Santa Casa, sendo depois emprestada à colegiada da igreja de Sta. Maria da Graça totalmente destruída pelo terramoto. Hoje a igreja da Misericórdia dizem pertencer à paróquia de Sta. Maria por uma inexplicável e indevida apropriação lesiva do património da Santa Casa da Misericórdia.

Os relatos do cataclismo, em grande parte saídos da pena do clero, dão especial relevo aos danos verificados nos templos e às estatísticas de fiéis vitimados. Pela tragédia que houve, os mortos tanto em terra como no mar, certamente ultrapassaram largamente a estatística elaborada na altura.

A cidade ficou privada de bens essenciais visto os produtos enceleirados terem ficado soterrados nos escombros das casas. Parece que o vinho, produto importante na economia da região, estava ainda na sua grande parte envasilhado e por vender, bem como os figos secos, as amêndoas e todos os demais géneros. A água para consumo tornou-se escassa devido aos danos causados no aqueduto de abastecimento.

Para termos, hoje, uma ideia da ruína em que a cidade ficou, basta olharmos para o cunhal do armazém regimental, na Praça do Infante, e vermos a profusão de vergas e umbrais das pedras trabalhadas das casas que caíram. A reconstrução foi outro gravíssimo problema. Não houve tempo de remover os escombros, tendo sido aterrados os sítios mais baixos como o caso da Praça do Infante que aumentou em cerca de um metro o seu nível anterior. Ficou soterrado o poço situado no Armazém Regimental, por baixo da pedra com o fac-símile da assinatura do Conde de Avintes. Este poço dava serventia ao dito armazém e à população, estando para isso dividido pela parede do edifício. O passeio do poço estava ladrilhado. Isto foi observado quando o fundador do Museu Municipal de Lagos, o Dr. José Pimenta Formosinho andou a pesquisar o que podia restar do Pelourinho.

O cais conhecido pelo “cais velho” desceu abaixo do seu nível obrigando os alicerces das portas do cais e da Alfândega a acompanhar esse desnível, forçando a reconstrução de novas soleiras das portas sobre as anteriores. Há bem poucos anos houve no local uma intervenção arqueológica que deu conta desse facto.

Neste trabalho foi estendida uma tela plástica para isolar o local e permitir o aterro onde seria posteriormente colocada a relva, porém os operários que procederam a esse trabalho, achando mal empregado o plástico nesse fim retiraram-no e aterraram o local.

Poucos edifícios de habitação foram, de imediato, reconstruídos. Foi dada prioridade aos edifícios propriedade de instituições religiosas e aos militares. O Forte do Pinhão que se diz ser o monumento militar mais antigo de Lagos, por ter sido completamente destruído, ficando uma parte separada de terra, não foi reparado, ficando ao abandono.

A ermida de Santo Amaro, edifício muito antigo, ficou incólume por estar construída num maciço rochoso geologicamente bem estruturado. Por ter sido o único templo que não sofreu danos, nele se realizaram os ofícios religiosos durante algum tempo. Hoje, é um monte de ruínas. Aquilo que o sismo não conseguiu fazer, faz a incúria dos homens. Toda a zona se Santo Amaro foi refúgio para as gentes de Lagos que ali construíram barracas para se abrigarem até serem reconstruídas as casas na cidade.

Fazer todo este relato, que não é mais do que uma repetição do que está escrito, serve sobretudo para recordar aquilo que se vai esquecendo, esperando que semelhante catástrofe não se venha a repetir.

 

 

A Reconstrução

 

A reconstrução das habitações da cidade reutilizaram os velhos alicerces pelo que a traça urbana manteve o desenho anterior ao terramoto. Mantiveram-se alguns topónimos mas outros foram alterados. Mantiveram-se a Rua dos Tanoeiros, Rua da Vedoria, Rua de S. José, entre outros. A reconstrução da cidade estendeu-se por muitos anos atendendo à condição de miséria económica. A perda dos haveres da população constituiu um rude golpe na economia doméstica das famílias que não receberam qualquer tipo de apoio do governo. Esta situação verificou-se por todo o Sul do País.

A Pesca, em Lagos, ficou inoperacional pois o maremoto (hoje também se diz Tsunami) destruiu as artes existentes. A única esperança de sobrevivência residia na agricultura mas considerando que o cataclismo ocorrera na altura das sementeiras e que os apoios agrícolas também tinham sofrido gravemente os seus efeitos (inúmeras casas rurais destruídas, alfaias soterradas, etc.), estava-se perante uma situação muito crítica que envolvia todas as classes sociais. Inevitavelmente, tudo teria que ser reconstruído e, nisso, foram empregues os maiores esforços, ainda que fossem demasiados os escolhos que juncavam o caminho: subida do preço dos géneros de primeira necessidade, subida da mão-de-obra (devido à falta de pessoal já que faleceram mais de 400 pessoas, não contabilizando os que ficaram inutilizados).

A própria Câmara Municipal só pôde desempenhar as suas funções em casa própria, cerca de 80 anos depois do terramoto.

A única salvação para o País residia nas riquezas que advinham das colónias, sobretudo do Brasil. Lagos, nessa época, não usufruía directamente dessas carreiras marítimas pois todo o trato marítimo estava já sedeado em Lisboa. Lagos entrara já no período de decadência pois o seu porto não comportava embarcações de maior calado. A sua maior fonte de rendimento continuaria a ser a Pesca. Só a partir de finais do séc. XVIII, mas sobretudo no séc. XIX é que Lagos viria a conhecer um sopro de recuperação com a instalação da indústria conserveira, as salgas de peixe primeiro e depois as conservas em azeite. Estas actividades ficaram a dever-se, em grande parte, à vinda de industriais estrangeiros: gregos, italianos e franceses. Esta actividade veio incrementar o surgimento de mais armações de pesca que a alimentavam. Hoje, no ano 2000, encontra-se totalmente extinta.

A exportação também, em certa medida, contribuiu para fazer face às dificuldades do meio rural, com o incremento do plantio de figueiras e amendoeiras destinando-se os seus frutos a mercados exteriores. Toda esta actividade envolvia muita mão-de-obra distribuída por várias indústrias subsidiárias que davam resposta às exigências da actividade exportadora. Oficinas de carpintaria, serralharia e tanoaria e outras que a cidade nessa altura possuiu. Se olharmos com atenção para algumas ruas da cidade, sobretudo na parte interna do amuralhado verificamos que a construção daquela época reflecte uma certa prosperidade. Impera a estética pombalina desde o traço arquitectónico das fachadas até à aplicação do ferro trabalhado, produto de artífices locais. É isto uma boa parte do Centro Histórico da cidade, pelo que o mais antigo, o anterior ao terramoto cinge-se ao próprio amuralhado e pouco mais. Do que foi construído a partir de 1960, sob o signo da Era Turística, avoluma-se o mau gosto resultante de critérios de urbanistas e historiadores que descaracterizaram o tecido urbano da cidade, como se verifica na Praça Gil Eanes.

Voltando ao referido Estudo do Risco Sísmico no Centro Histórico de Lagos, parece pretender salvar o que resta desse núcleo urbano, indicando as medidas a tomar. E isto é importante se considerarmos a degradação da maior parte dos nossos monumentos, situação evidente no dia-a-dia.

De um livro existente na Biblioteca Municipal de Lagos, Dr. Júlio Dantas, sobre o Terramoto de 1755, onde se faz referencia aos estragos que Lagos sofreu também se extraiu a relação de outros sismos ocorridos: no ano de 382 ocasionou o desaparecimento de uma ilha defronte do Cabo de S. Vicente; em 22/02 de 1309 não houve estragos de grande monta; em 24/08 de 1356 foi muito forte, semelhante ao de 1531; em 05/04 de 1504 violento e com várias réplicas, provocando a fuga de muita gente para os campos; em 26/01 de 1531 fez grandes estragos em Lisboa, caíram 1.500 casas; em Novembro de 1587 foi muito forte, em Loulé morreram 170 pessoas; em 06/03 de 1719 foi muito intenso, fez prejuízos em Mexilhoeira da Carregação, Estombar, Lagoa, Alvor e em Lagos arruinou muitos edifícios; em 09/03 de 1719, pelas 5 horas, teve longa duração mas sem efeitos destruidores; em 27/12 de 1722 entre as 17 e as 18 horas, fez vários estragos em templos de todo o Algarve; em 01/04 de 1748 na Ilha da Madeira caíram várias casas e morreram várias pessoas; em 01/11 de 1755, o mais violento de todos, destruiu Lisboa e Lagos de que se fez uma parte do descritivo; em 12/01 de 1858 foi muito sentido em Loulé mas menos do que aquele de 1587; em 11/11 de 1858 foi menos intenso do que o anterior; em 23/03 de 1909, conhecido pelo Terramoto de Benavente e Salvaterra teve efeitos muito destrutivos.

 

 

O Sismo de 28 de Fevereiro de 1969

 

O último sismo do nosso tempo, pode-se assim dizer, ocorreu a 28 de Fevereiro de 1969, pelas 3horas e 30 minutos aproximadamente. O abalo sentido foi muito violento e se a sua duração se prolongasse os prejuízos seriam incalculáveis. Seguiram-se várias réplicas com destaque especial para uma que sobressaltou toda a gente. Algumas pessoas mais amedrontadas utilizaram os seus meios de transporte para, rapidamente, se colocarem a salvo na zona de Santo Amaro à imagem daquilo que muitos habitantes já haviam feito em 1755. Na cidade houve a lamentar a perda de uma vida devido a desabamento de uma das paredes da habitação degradada onde vivia. Foram várias as zonas atingidas nomeadamente as povoações de Bensafrim e Barão de S. João. Na primeira destas localidades caíram mais de 20 casas. Na Vila do Bispo e em todas as povoações deste concelho os prejuízos foram avultados, com muitas casas derrubadas e outras gravemente arruinadas. Em Lagos muitos edifícios ficaram danificados e as rachas apresentadas obrigaram a escorar alguns nomeadamente na Rua Afonso de Almeida e na Rua Direita. Todo o Algarve teve avultados prejuízos o que obrigou o então Presidente do Conselho de Ministros, Professor Marcelo Caetano a deslocar-se às zonas afectadas para verificar os estragos, tendo percorrido parte do concelho de Lagos. O edifício da Câmara Municipal ficou danificado com o piso superior fendido e em risco de derrocada a ponto do juiz da Comarca ordenar que se retirasse o Tribunal, que aí funcionava, para o Palácio da Justiça que ainda estava em construção e que só viria a ser inaugurado em 11 de Maio desse ano.

Calcula-se, segundo pessoa que andou nesse inquérito, que foram cerca de 400 as casas derrubadas ou arruinadas. O Estado disponibilizou verbas para resolver as situações mais urgentes e terão sido gastos aproximadamente 24 mil contos. Foram também concedidos subsídios reembolsáveis a juros baixos, com vista a serem consertadas as casas de pessoas com bens próprios, depois de devidamente inquiridas.


 


Descrição: Acção do sismo de 1969, deslocação de terreno

Localização: Algarve

 Autor: C. Teixeira

 

 

Durante alguns anos ainda se viam casas escoradas um pouco por todo o Algarve, tal foi o caso na baixa de Portimão. Em muitas casas que apresentavam rachas foram colocados esticadores de ferro e tapadas as fendas com argamassa. Consta que o Governo terá oficiado a Câmara Municipal pedindo uma relação dos prejuízos no edifício dos Paços do Concelho e que esta terá respondido que estava nas suas intenções construir um novo edifício, e tudo ficou por aqui. Só em 1982 é que se procedeu à reparação do edifício.

A magnitude do sismo de 1969 atingiu os 6 graus e alguns décimos na escala de Richter. Os sismógrafos norte americanos assinalaram com preocupação temendo um grande desastre na Península Ibérica. Era o que se disse na altura.

Dos fenómenos naturais conhecidos o mais pavoroso é o terramoto pois é sempre inesperado. De todos os outros se fazem previsões mais ou menos exactas. Este aspecto tem preocupado o mundo científico, e nem sequer o facto de reconhecermos que os animais detectam este perigo com alguma antecipação nos permite decifrar esse enigma. Uma pista aponta para a sensibilidade dos animais aos ultra-sons gerados pelas massas da crosta terrestre em movimento.

Pelo que se retirou desta lição/estudo apresentada na Biblioteca Municipal, há uma complexidade de fenómenos resultantes dos sismos destacando-se os tsunamis ou maremotos, extremamente destrutivos para as zonas litorais, tal como o exemplificou o maremoto de 1755.

Outro fenómeno apontado refere-se à ressonância provocada pelas ondas sísmicas ao embaterem contra as diferentes estruturas da terra de que resultam ondas de picos elevados e de grande destruição em zonas diferentes e imprevistas.

Quanto ao lugar em que vivemos é inegável a sua exposição elevada a este fenómeno pelo que se justifica plenamente o alerta lançado: é imperioso corrigir os factores relacionados com a estabilidade dos edifícios e não permitir a edificação superior a três andares. As construções encontram-se muitas vezes fragilizadas por deficientes impermeabilizações e utilização de materiais inadequados à edificação, acrescendo ainda uma má localização geográfica com violação dos leitos de cheia de importantes linhas de água e implantações em terrenos sedimentares.

Estiveram de parabéns os organizadores deste Estudo mas devem procurar ir, ainda, mais longe e, sobretudo, transformar estes conhecimentos, consciência, e bom-senso em posturas e regras que conduzam à diminuição do impacto de cataclismos deste tipo.

 

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A BARCA DAS ARMAÇÕES

por José Carlos Vasques

 

A barca da armação, provida de vela latina fora construída e aperfeiçoada ao longo de anos e, embora preparada para recurso aos remos no caso de não haver vento, foi sem dúvida a vela que mais celebrizou este tipo de embarcação, capaz de navegar tanto à bolina cerrada como à trinca, isto é, com o vento quase de proa. Muito valia, como é óbvio, a mestria dos pescadores que com estes barcos lidavam. O formato do seu casco, um abaulado quase chato, tem explicação na necessidade de vará-los nas praias, onde se situavam os arraiais das armações ou quando os vendavais assolavam a costa, ou ainda quando demandavam a lota de Lagos onde se procedia à venda do peixe, na sua quase totalidade capturado nas armações de Lagos e Sagres. Ora, a barra de Lagos não dava entrada na maré baixa, a qualquer tipo de embarcações, mas estas barcas, com estes cascos, melhores possibilidades tinham de entrar, mesmo com risco de em marés baixas ficarem em seco.

Outros tipos de barcos semelhantes foram construídos e destinados a outros géneros de pesca: as conhecidas canoas, equipadas também com velas latinas, mas com a popa em painel, são disso exemplo.

As barcas das armações tinham as velas à boa volta, quando navegavam de Sotavento para Barlavento e sobre o pau, quando ao contrário. Para maior estabilidade possuíam lastro composto por duas ou quatro lages colocadas em cima do cavername, no fundo da embarcação.

A barca tinha a popa em gume para não orelhar quando, com a vaga, era preciso vará-la nas praias. Obviamente, o leme era retirado quando o barco varava.

Segue-se a nomenclatura específica mais significativa da sua aparelhagem: Na verga, com o penol ( a extremidade), a frente do carro é constituída por duas peças ligadas, denominada chemela; dos cabos constam as amuras, as orças e a escota, que são ligados à vela; o bracel abraça a verga do mastro; o mastro entra numa cavidade denominada carlinga, é preso ao banco de alvorar e fixado por dois aparelhos, um em cada bordo.

 

 

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contactar: José Carlos Vasques


 

O INFANTE D. HENRIQUE

E o que não se disse nas Jornadas Henriquinas de 2004

por José Carlos Vasques

O que ficou por dizer, ressalvando algum lapso de audição, foi a nebulosa razão da escolha do Infante D. Henrique por Lagos, terra tão distante da corte, no reino do Algarve, que não conheceu rei que cingisse a sua coroa.

A importância deste reino tão esquecido e abandonado, tão estranho (em que as entradas principais das suas cidades e vilas ostentavam o topónimo “Porta de Portugal”, como que indicando a direcção para um destino estrangeiro), e separado geograficamente, por um sistema natural de serras, não deixou, porém, de ser insistentemente considerado.

Sem aristocracia de raiz e apenas governado por fidalgos nomeados pelo monarca, não é de admirar que os algarvios tenham exultado com a presença do Infante, pessoa de legítimo sangue real.

Tentando ultrapassar o misticismo que compõe o floreado da nossa história, o que parece ser concreto é que o Infante encontrou em Lagos condições para concretizar as suas ambições, afastado da corte. Lagos, na rota do Norte para o Mediterrâneo seria ponto estratégico já há muito, sendo conhecido pelos povos do norte da Europa e pelos outros povos da orla mediterrânica que muitos séculos antes já frequentavam a nossa costa em toda a extensão, e aqui se fixaram em diferentes épocas da antiguidade.

Os pescadores de Lagos, muito antes da vinda do Infante, já cruzavam os mares perseguindo os cardumes de peixes, quando as migrações não os traziam junto da costa e os levavam, como se sabe, frequentemente, até ao norte de África.

Outra actividade que exigia conhecimentos do mar e da navegação era a pirataria, prática corrente na época. O roubo incidia, principalmente, sobre as cargas de mercadorias das embarcações que se dedicavam a essa actividade.

O contacto com outros povos, outras culturas, foi permitindo o desenvolvimento de técnicas e a obtenção de ensinamentos. De realçar a herança deixada pelos mouros e árabes, nomeadamente no que concerne à construção naval, pesca e agricultura. Na pesca, as almadravas, arte de redes fixas para a captura de peixes de grande porte como o atum, a corvina e outros; e os acedares para a captura do peixe miúdo como a sardinha, o sarrajão, a cavala. Para preparar as artes de rede era necessária matéria-prima para as cordas e o fio para a rede, os pesos e os flutuadores. A indústria exigia uma organização para garantir a operacionalidade de todo este sistema. Os cordoeiros já conheciam a roda de cordoeiro para executar a tecedura. A matéria-prima era o esparto, a pita e o linho, este último exigia muito trabalho desde a sementeira nas margens das ribeiras até à sua utilização em redes, velas ou vestuário. O linho era macerado nas ribeiras, sendo batido sobre pedras, os “pisões” e depois deixado a secar. Monchique produzia muito linho, assim o atesta também o topónimo “barranco dos pisões”. Esta actividade chegou a grau de intensidade tal que obrigou os monarcas a proibir a prática das macerações nas ribeiras pois conspurcava as águas que assim deixavam de ter préstimo para outros fins.

Conhecia-se, desde a mais remota antiguidade, a técnica de preparação de artes de pesca fixas pelo que nesse capítulo o Infante nada de novo possibilitou ao Algarve, a não ser o investimento de capital dos rendimentos da sua casa senhorial. A pesca do atum já era aqui exercida por fenícios, cartagineses e gregos e muito ampliada pelos romanos, o que é atestado pela intensa proliferação de cetárias (os tanques de salga e conservação) ao longo da costa algarvia.

Após a conquista do Algarve, os nossos reis tiveram aqui avultado rendimento com a pesca do atum e dos cetáceos, classificados como peixes reais. A partilha era muito rentável para o monarca. Em 10 espécimes pescados, 6 eram para sua majestade, e 4 para o pescador. O atum, passava duas vezes junto à costa, uma no sentido do Mediterrâneo, gordo e para a desova, dito de direito, e regressava magro rumo ao Atlântico, dito de revês. Nestes cursos era capturado pelas armações, sendo o de direito mais valorizado comercialmente.

Nem só os cetáceos eram capturados com arpões e ao corrico. A baleia tinha um valor muito elevado sendo bastante tributada. O aproveitamento destas espécies era total. Carne para alimentação e o óleo para muitos e variados fins. Os ossos e os dentes eram usados no fabrico de objectos de adorno.

A extracção dos óleos teve uma tecnologia própria, que chegou até aos nossos dias. O óleo mais fino obtinha-se expondo as peles aos raios solares, e por acção do calor ia escorrendo esse fino óleo. Os óleos obtidos usavam-se na iluminação e na preparação de tintas e sabão.

A indústria ligada à pesca nunca poderia existir sem esse grande elemento conservante que é o sal. As marinhas, muito frequentes nos terrenos marginais dos estuários dos rios, produziam grandes quantidades de sal marinho para responder às necessidades da salga de peixe, bem como às solicitações gerais da conservação e tempero dos alimentos. E era tal a sua importância que o poder real criou as Casas do Sal.

Considerando todas estas actividades, e os impostos respectivos, a concessão do senhorio de Lagos ao Infante D. Henrique foi, claro está, para este, muito vantajosa.

Foi, inegavelmente, a construção naval o topo de todo o desenvolvimento das coisas ligadas ao mar. Os estaleiros navais tinham uma actividade febril e as artes aí praticadas foram passando de geração em geração, até aos nossos dias: ainda hoje há mestres calafates e outros artesãos, que em rápido e anunciado desaparecimento, mais não são do que os directos herdeiros dos mestres de antanho.

Como os metais eram caros, só se empregavam pregos de metal nas aplicações mais importantes. Os malhetes já se usavam ao tempo do Infante, e com muita frequência e êxito.

A grande evolução do mundo náutico aconteceu com a arte de navegar, com a optimização de um tipo de embarcação e de velame utilizado, proveniente dos povos do Norte de África ou da região mais dilatada do mundo árabe, hoje conhecida por Magreb. A caravela, embarcação de velas triangulares que permite navegar aproando, até bem perto, da linha do vento confere grande versatilidade à arte da navegação. A armação da Caravela, com óbvias alterações e adaptações, chegou até aos nossos dias através dos caíques do Algarve. Com tais embarcações “pode o Infante navegar” com segurança e enfrentar a pirataria que infestava a costa. As caravelas foram até à Grécia buscar bacelos de videira, e à Sicília a cana-de-açúcar, para plantações na Ilha da Madeira.

E daqui, se lançou o Infante nas aventuras do mar e na descoberta de novas terras e no povoamento das Ilhas dos Açores e da Madeira, com o claro contributo das gentes de Lagos e do resto do Algarve.

Mas não foi só na pesca e no mar em termos gerais que se ancorou a economia da região. Foi também na agricultura. O largo período de domínio árabe enraizou muitas técnicas e actividades agrícolas. O aproveitamento da água na horticultura através das técnicas dos poços e minas e das irrigações de vastas áreas de campo. Introduziram as noras e os engenhos, os alcatruzes, os algerozes e outros pequenos mas importantes artefactos que facilitaram e optimizaram as tarefas da agricultura.

Um dos produtos de grande interesse e fácil conservação era o figo. A sua secagem ao sol era feita numa cercadura de plantas silvestres (o almanchar), sendo depositado sobre esteiras de funcho ou canas até resultar em passas. Posteriormente era submetido ao expurgo, em cubículo bem fechado (fumeiros), exposto aí ao vapor de enxofre queimado em fogareiros. Assim se evitava o ataque de parasitas. Com o tempo o figo criava sobre a pele o pó açucarado, e até fermentações, que lhe retiravam valor. Para evitar isto o figo era submetido a outro tratamento. Era torrado. As passas do Algarve ficaram célebres, talvez por terem acompanhado os portugueses nos Descobrimentos.

Apesar de, como se diz ou pensa, o Infante D. Henrique ser abstémio, fabricava-se muito vinho em Lagos e nas suas cercanias, alimentando esta actividade uma forte indústria de tanoaria. Não só para embalagem do vinho como também da água. De tudo se fazia numa tanoaria: celhas, pipas, barris, baldes, e dornas para salgar peixe ou carne.

Pensa-se que, na verdade, de tudo isto, e mais, o Infante usufruiu mas não morreu rico. Não se diz, ou não se sabe, quanto terão custado as aventuras militares em África, que para ele terão tido resultados económicos negativos, não obstante o negócio dos escravos que essas aventuras também potenciaram.

O aspecto positivo foi, sem dúvida, a abertura ao mundo de então das novas terras descobertas, o povoamento desses novos espaços, e a mobilidade e facilidade do trato comercial, já anteriormente existente, com locais distantes e remotos. 

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